• Folclore 14.06.2011 No Comments

    Luíz Gonzaga, o rei do baião, sempre inspirou muitas pessoas e muitas histórias. Esta hostória segundo me foi contada ,aconteceu no agreste de Pernambuco. Não sei se foi verdade ou mentira, afinal não me cabe investigar isso. A mim cabe a obrigação de contar, somando-se a tantas e tantas que circulam por aí, enriquecendo o folclore brasileiro.

    O baião é um dos ritmos nordestinos mais apreciados. Faz parte da música regional, compondo com o xote e o xaxado, os principais ritmos representantes da musicalidade do forró.

    O incontestável rei do baião é e sempre será o pernambucano de Exu Luis Gonzaga. Ele imortalizou os ritmos do forró através da gravação de centenas de canções num incontável número de discos ao longo de décadas. Mesmo hoje após a sua morte ainda continua venerado e fazendo sucesso e escola no meio musical.

    Ao longo de gerações o velho Lua, como era chamado carinhosamente, vem conquistando fãs apaixonados em todo o Brasil.

    Um desses fãs ardorosos era um caboclo morador do agreste chamado de João de Noca. O apelido, diziam, era por causa da facilidade que sua mãe tinha em fazer amizades e receber as pessoas. Todos gostavam de ir à casa de Noca. Fizeram até uma música para o carnaval segundo contavam.

    João era um apaixonado pelas músicas do rei do baião. Mal assinava o nome, mas, sabia de cor e salteado todas as letras de Gonzagão. Asa Branca, ave Maria, para ele era o hino do sertão. Pense numa música boa que dava emoção.

    Só sabe doutor, quem mora ou já morou no sertão de Pernambuco, durante uma seca braba. Era só ouvir tocar e o homem começava a cantar e logo caía no choro de emoção.

    João tinha todos os Lp’s (abreviatura de Long Playings), do Rei. LP era o nome dado pelas gravadoras aos discos de doze polegadas de diâmetro feitos em vinil. Foram colecionados com muito sacrifício, ao longo de muitos anos, já que João não era um homem de posses. Mantinha-os todos, impecavelmente guardados em suas capas originais.

    Ouvia os discos de vinil tocando em várias rotações. Tinha desde os antigos de 78 rpm com uma música de cada lado, aos de 33 e 1/3 com várias canções de cada lado, mais modernos.

    Ligava diariamente uma velha vitrola que ganhara do patrão. Era da marca ABC, fabricada ali mesmo no Recife no bairro da Mustardinha, bem próxima à fábrica de discos  Rozemblit  onde muitos artistas famosos gravaram álbuns que fizeram a história da música no Brasil.

    Todo cuidado era pouco para não quebrar a agulha magnética ou arranhar os preciosos discos. Vivia feliz com seus sonhos e sua música.

    Já sua mulher, preferia ver o cão a ouvir Luiz Gonzaga. No começo até gostava, mas tomou o maior abuso por causa do fanatismo e egoísmo do marido. Chamava-se Zefa de Zé do Timbó, não se sabe se era porque o pai nascera em Tacaimbó ou porque costumava pescar nos açudes das fazendas na calada da noite utilizando timbó para pegar os peixes. Era uma pesca predatória já que não respeitava nem tamanho nem idade. Se brincasse, arrastava até os alevinos.

    Para piorar a história, ela era doidinha por Waldick Soriano, o maior cantor brega do Brasil e não tinha chance de ouvi-lo na radiola de João, por absoluta falta de oportunidade. Já tinha avisado ao marido que qualquer dia daria fim àqueles discos.

    Viviam na zona rural numa casa de fazenda cedida pelo patrão. Casa típica do semi-árido nordestino tinha uma boa área construída, mesmo não tendo acabamento de chapisco ou reboco, tinha uns poucos pontos de luz. Atrás da casa um grande quintal, onde existia um chiqueiro com algumas cabeças de criação, distribuídas entre caprinos e ovinos, guinéis e galinhas de capoeira. Nos terrenos em volta era uma caatinga só, onde predominava uma vegetação típica composta por mato rasteiro e pés de algaroba e juremas, cheias de espinhos pontiagudos.

    Dentre as músicas gravadas por Luis Gonzaga, a preferida de João de Noca era uma canção chamada O Rabo do Jumento de um compositor potiguar chamado Elino Julião.  Talvez pela lida diária com animais e sendo o jumento um excelente companheiro de trabalho, compadecia-se com a letra da canção que narrava a infelicidade de um muar que teve o seu rabo cortado por um fazendeiro raivoso chamado Nascimento. O imprevidente ser movente invadira o seu terreno e lhe comera algumas espigas de milho e por isso fora castigado.

    Mas, diante da obstinação e do fanatismo de João de Noca em passar todas as horas em que estava em casa com a radiola ligada tocando baião de Luis Lua, sem dar oportunidade para outro cantor, Zefa chegou ao limite da tolerância.

    Sempre que tinha chance, cantarolava “eu não sou cachorro não, pra viver tão humilhada..” música de maior sucesso do seu querido Waldick. Era também uma forma de dar vazão à sua própria insatisfação.

    Um belo dia ela amanheceu virada para a lua. João tinha ido para a feira na cidade e só voltaria no fim da tarde, já que nos sábados de feira, costumava tomar uns gorós jogando bozó com os amigos.

    Zefa resolveu cumprir a promessa tantas vezes adiada. Pegou todos os discos, dos Lp’s aos compactos simples e quebrou um a um e foi jogando a pedaceira no terreno atrás da casa. As capas rasgou todas e fez uma grande fogueira enquanto entre uma risada nervosa e outra cantava “eu não sou cachorro não, …”.

    João voltou no fim da tarde e chegou morrendo de vontade de escutar seus baiões, xotes e xaxados. Ao entrar em casa ficou em choque. Nem um disco na casa e nem sinal da mulher. Entendeu logo o que tinha acontecido. Zefa de Zé do Timbó tinha cumprido a sentença tantas vezes anunciada. Fora embora e ainda o deixara sem os seus amados discos. Certamente sentiria mais falta desses do que dela, pois só lhe davam alegrias, enquanto ela alternava bons e maus momentos. Nos últimos tempos, mais momentos ruins, por causa das constantes brigas devido às diferenças de preferências musicais, entre outras coisas.

    Já tomado pela emoção, ajudado pelas três garrafas de aguardente que tomara com os amigos na feira, ouviu algumas notas bem conhecidas que começavam e paravam em breves intervalos. Eram frases soltas, mas a melodia era a do Rabo do Jumento.

    Eu não quero pagamento Nasci…” e repetia, “eu não quero pagamen…”.

    Guiou-se pelo som chegando a um dos pés de jurema. Era um pedaço de disco enganchado nos galhos da árvore.

    Quando o vento soprava, balançava o galho e o espinho encostado no pedaço de vinil reproduzia trechos da canção.

     

     

     

     

     

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  • Estamos no mês de junho e justamente no São João do ano passado nasceu Júlia, neta de uma amiga nossa Vera Lucia Magalhães. Vera gosta de meus cordéis e Júlia já nasceu minha fã. Para os amigos jamais falta inspiração. Agora que Júlia vai completar seu primeiro ano de vida, nossa amiga resolveu transformar o cordel em convite. Ficou bem original e compatível com a data. Resolvi então publica-lo com meus votos de muitas felicidades e uma longa vida repleta de realizações. Parabéns Júlia.

    I

    Entre São João e São Pedro

    Júlia chegou neste mundo

    Com fogueira e foguetão

    Recebeu amor profundo

    Da mamãe e do papai

    Desde o primeiro segundo

    II

    Já chegou botando banca

    Pedindo a bença a vovó

    Vera Lucia Magalhães

    Que era um sorriso só

    Já queria ter vestido

    Pra festa de Caicó

    III

    Com três dias de nascida

    Já pediu pra passear

    Tomar um banho de praia

    Depois sair pra dançar

    Um forró bem arrochado

    Até o dia raiar

    IV

    O papai de cara feia

    Achou muito inxirimento

    Foi logo dizendo não

    Ainda não era o momento

    Ela estava nos cueiros

    Já queria movimento

    V

    Vovó Vera prometeu

    Ensinar bem direitinho

    O português, o francês

    O espanhol bem rapidinho

    Italiano e inglês

    Alemão bem de mansinho

    VI

    Com tanto ensinamento

    Nas letras vai ser doutora

    Escritora poliglota

    Poetisa e tradutora

    Romancista de renome

    E do Nobel ganhadora

    VII

    Prefere a ecologia

    Cuidar do meio ambiente

    Morar em Rio do Fogo

    Que nem é frio nem quente

    Vento gerando energia

    E a vida seguindo em frente

    VIII

    Salvar a vida do mar

    Ter lagosta e camarão

    Caranguejo bem gordinho

    Para fazer refeição

    Um bom caldinho de ostra

    Ninguém é de ferro não

    IX

    Mas tudo muito certinho

    Dentro das regras do jogo

    Conservar o paraíso

    Que existe em Rio do fogo

    A qualidade de vida

    Essencial para o povo

    X

    Vai lembrar de Marcolino

    O poeta de cordel

    Que escreveu estes versos

    Olhando o azul de céu

    Quando você batizou-se

    Toda de branco e de véu.

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  • Às vezes o poeta se depara no dia-a-dia com situações inusitadas ou mesmo acontecimentos contemporâneos, tais como catástrofes, crendices e coisas do gênero. Depois do furacão Katrina, em uma roda de conversa alguém falou: “ puxa vida o mundo vai se acabar desse jeito e daí surgiu o mote. Vale lembrar no entanto, que nós estamos levando a natureza a dar o troco, com a nossa ignorância, não respeitando o meio ambiente e o equilíbrio de suas forças.

    ESTE MUNDO SE ACABA COM CERTEZA

    PELA ÁGUA, COM FOGO OU PELA TERRA

                                                                      I

    O vulcão vomitando a sua ira,

    Pelo chão sua lava incandescendente,

    Fogaréu com furor sem precedente,

    Transformando a floresta em grande pira

    Num incêndio que o mundo jamais vira

    Resultante da força que ele encerra

    Pouca gente sobrou depois da guerra

    Dessa força sem fim da natureza

    Este mundo se acaba com certeza

    Pela água, com fogo ou pela terra.

                         II

    Lá no mar começou um furacão

    Uma força voraz devastadora

    Batizado Josefa ou Aldenora

    Vai varrendo o que acha pelo chão

    Automóvel, trem bala ou caminhão

    Pela praia, no mar ou pela serra

    Não tem alvo difícil, ele não erra

    Soberano é mais rei que sua alteza

    Este mundo se acaba com certeza

    Pela água, com fogo ou pela terra.

                          III

    Um estrondo da terra treme o chão

     E o solo então se movimenta

    A estrutura das casas não agüenta

    Pois o ferro e o concreto são em vão

    Cai o prédio, a barragem e o pontilhão

    Chora o povo, com a dor que a luta encerra

    Os destroços desabam, tudo enterra

    Morre gente ao redor é só tristeza

    Este mundo se acaba com certeza

    Pela água, com fogo ou pela terra

     

     

     

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