• Depois de 40 anos de casados, muito amor e muita prosa, por tradição não podem faltar os versos. Comemoramos com parentes e amigos no último dia 03/12/16 em Natal/RN onde moramos. Eu Mestre Marcolino e minha fiel escudeira e companheira Ângela Venturinha.

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    BODAS DE ESMERALDA – 40 ANOS DE CASADOS

     

    I

    Quarenta anos se foram

    Eu com você ao meu lado

    É sorte pra pouca gente

    Merece ser bem lembrado

    Com muita festa e alegria

    Muita conversa e poesia

    Momento bem festejado

    II

    Vêm amigos de Natal

    Paraíba e Pernambuco

    Queria a banda de Pífanos

    Uma salva de trabucos

    Sarapatel com cachaça

    Champanhe tomado em taça

    E pirão de osso buco

    III

    Conosco estarão presentes

    Umas quatro gerações

    O decano é tio Doca

    Cunhado de minha mãe

    Pois era irmão de papai

    Com ele não tem mas, mais

    Bisavô com muitos fãs

    IV

    Estamos muito felizes

    Pois tia Ivonete veio

    Tia Inês também presente

    Assim nada fica feio

    São duas tias queridas

    Presentes nas nossas vidas

    Nos servindo de esteio

    V

    Para uma festa completa

    De bodas de Esmeralda

    Não podem faltar os filhos

    Os netos e a parentada

    Irmãos, primos e cunhados

    Compadres e agregados

    Os amigos de jornada

    VI

    Com tanto tempo de casa

    Parece fácil fazer

    Uma festa pros amigos

    Preparar e receber

    Mas não se engane menino

    Tô com a cabeça zunindo

    Do trabalho de fazer

    VII

    Começa com o cardápio

    O que fazer pra comer?

    Pois festa só com conversa

    Ninguém faz por merecer

    Pra segurar o assunto

    Manter todo mundo junto

    Tem que comer e beber

    VIII

    Na tradição da família

    Receber bem é de praxe

    Para isso o regabofes

    Tem que ser bom e de classe

    Uma comida gostosa

    Com uma deliciosa

    Sobremesa de repasse

    IX

    Depois de muito pensar

    Estudar as opções

    De carne assada a filé

    Com salada e melões

    Depois de muito zumbido

    E atendendo a pedidos

    Ficamos com os feijões

    X

    A feijoada famosa

    Que já serviu tantas mesas

    Foi primeira na escolha

    De quem conhece a proeza

    De uma soma de sabores

    Com perfumados odores

    Satisfação com certeza

    XI

    Vindo bem acompanhada

    De uma boa farofinha

    Um arroz bem preparado

    E uma pimenta quentinha

    É um prazer infinito

    Tudo fica mais bonito

    Só falta uma cachacinha

    XII

    Tem uma couve à mineira

    Um caldinho elaborado

    Tem vinagrete fresquinho

    Um tempero aprimorado

    Tudo pra satisfazer

    Comer e a barriga encher

    E sair bem saciado

    XIII

    Tem bolo, tem sobremesa

    Cantador com violão

    Musicando nossa festa

    Com força e inspiração

    Pois recordar é viver

    A vida é um renascer

    Na poesia da canção

    XIV

    Nas lembranças dessas bodas

    No tempo que se passou

    Tem cartas, tem bilhetinhos

    Muita fé, muito fervor

    Convite de casamento

    Um registro dos momentos

    De nossa história de amor

    XV

    Lembro dos tempos no Vale

    Dos anos em Petrolina

    Que nos deu muito aperreio

    Demos a volta por cima

    E trouxemos na bagagem

    Os momentos de coragem

    E o saber que a vida ensina

    XVI

    No sertão do São Francisco

    Fizemos grande amizade

    Com Rosalvo e com Goret

    Criamos uma irmandade

    Rafael, Maíra e Neto (s)

    O time fica completo

    É pura felicidade

    XVII

    Os primeiros quinze anos

    Lá no Recife vivemos

    Lá nasceram nossos filhos

    E a todos muito queremos

    Oh Pernambuco querido

    Foi um tempo bem vivido

    Que jamais esqueceremos

    XVIII

    Foi pelas mãos do destino

    Que viemos para Natal

    Pois recebi um convite

    No campo profissional

    Pensei em passar dois anos

    A vida mudou os planos

    Fiquei nesta capital

    XIX

    Lá se vão quatorze anos

    Nesta terra potiguar

    Fizemos novos amigos

    Temos o que festejar

    Morar aqui é gostoso

    É um povo carinhoso

    Oh lugar bom de morar

    XX

    Mas, sempre falta um pedaço

    Pra festa ficar completa

    Os nossos pais já se foram

    Aí a saudade aperta

    Forjaram nossos valores

    Nos deram tempos e amores

    Para uma vida repleta

    XXI

    Nós também sentimos falta

    Dos filhos no dia-a-dia

    Dos netos então nem se fala

    Chega a dar uma agonia

    Queremos ficar mais perto

    Um dia isso vai dar certo

    Então é só alegria.

    XXII

    Bianca, Marcel e Lucas

    São nossos filhos queridos

    Com Nara e Mariana

    Formam um time aguerrido

    Já nos deram quatro netos

    E pra nós é firme e certo

    Que não tem um preferido

    XXIII

    Nara e Marcel nos deram

    Dois homens, João e Tomaz

    Bianca nos deu Vicente

    Que já é quase um rapaz

    De Mari e Lucas, Aurora

    Que é linda até quando chora

    E já sabe falar papai.

    XXIV

    Vovô Marcos, Vovó Ângela

    Venturinha e Marcolino

    Caminhado lado a lado

    E a vida lhes sorrindo

    É um amor de verdade

    Com carinho, sem maldade

    Por isso o amor é lindo

    XXV

    Aos meus irmãos e cunhadas

    Aos nossos primos e  primas

    Aos tios e tias queridas

    E que não me falte rima

    O nosso abraço apertado

    Com nosso muito obrigado

    Nossa festa não termina

    XXVI

    Para encerrar me despeço

    Do nosso grupo de amigos

    Que aqui estavam presentes

    A quem a todos bendigo

    São parte dessa alegria

    Na prosa e na poesia

    E isso eu afirmo e digo.

    Natal 03 de dezembro de 2016

    MESTRE MARCOLINO

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

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  • A convite de meu amigo Matias Verzutti fiz uma estrofe em setilha para participar da Coletânea Poética – SOU DA TERRA NORDESTINA II, organizada por Gélson Pessoa. Espero que o editor tenha gostado e eu faça parte dessa obra.

    Vamos à poesia:

    SOU DA TERRA NORDESTINA

    PARAIBANO DA GEMA

    DO ZABUMBA À CONCERTINA

    TUDO TOCA NO MEU TEMA

    O MUNDO AO POETA ENSINA

    QUE NOSSA VIDA COM RIMA

    SE TORNA BEM MAIS AMENA.

     

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    NATAL/RN, 09 de julho de 2016

    Marcos Antunios de Carvalho Dias (Mestre Marcolino)

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  • O poeta vem meio devagar, pois a cada dia surgem novas e impressionantes expressões, palavras além, é claro, novos verbos. Com tanta coisa urgente para se fazer para desentortar o país nossa ilustre presidenta vai com o nosso dinheiro à Nova Iorque falar sobre a estocagem de vento. Nada de preconceito, mas algumas letras de músicas de sucesso são verdadeiras pérolas. Mas há espaço para todos na cultura popular. Não tem como não ter, afinal tudo é o resultado do ensino proporcionado pela “Pátria educadora”.

    I

    Educar para formar cidadãos

    É tarefa difícil e portentosa

    Requerendo sempre  muita ação

    É missão nobre e gloriosa

    Pois, para formar uma nação

    Só com educação laboriosa

    II

    A cultura é perene e permanente

    É o retrato fiel de cada povo

    Sem educação, a país todo sente

    Pois pouco se produz de novo

    Não se pode desprezar a gente

    Por não saber se é filé ou ovo

     

    Beijinho no ombro e bom feriado para todos.

    Recife, 10/10/2015

     

     

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  • Folclore 04.04.2012 4 Comments

    O Cara de Pau

    Austriclinio Maria da Silva nasceu na Paraíba, supostamente em Ingá do Bacamarte. A mãe viera para o Rio de Janeiro com ele de braço e mais outros seis com idades variando de oito anos para menos, na esperança de encontrar o marido que havia partido dois anos antes para tentar a vida em um lugar melhor, já que viviam na maior miséria no seco sertão do semiárido paraibano.

    A mãe o batizara o caçula com este nome porque lhe disseram que era de bom alvitre e traria muita sorte ao menino. Sim, precisaria mesmo de sorte, pois os dois menores Austriclinio e Avonino nasceram depois da viagem do pai que confiara a família ao seu cumpadre Zé Felinto, amigo de muitas décadas e homem da sua inteira confiança. O cumpadre prometeu que não tiraria os olhos da comadre. Podia seguir tranquilo. Pelo visto não tirou mesmo, já que a família aumentou e não passaram fome.

    Dizia inclusive que o caçula, nosso herói, era a cara do cumpadre. Era um amigo e tanto.

    Ao chegar ao Rio de Janeiro em um pau de arara depois de 15 dias de sofrida viagem, tomaram de cara o maior susto com aquele movimento e aquela cidade imensa e cheia de gente. O cumpadre dera uns cobres para a viagem que mal deu para pagar as passagens e comer alguma bugiganga pela estrada, sobrando muito pouco para os dias que viriam. Trouxeram galinha torrada, farinha e
    paçoca em latas de querosene, rapadura e umas duas quartinhas que iam sendo abastecidas com água por onde passavam.

    Assim Josefina Aparecida dos Santos (A Zefa de Zenô) conduziu a sua prole na grande aventura. Chorara muito ao se despedir da comadre e do cumpadre, mas como se diz por lá, rapadura é doce, mas não é mole. E a comadre já andava meio cismada achando os dois pirralhos bem parecidos com os dela.

    Pegaram um trem da Central do Brasil e foram procurar o pai e marido no endereço que recebera um ano e meio antes na última carta mandada por Zenô. Depois de muita dificuldade encontraram o tal lugar, mas nem sinal do sujeito. Primeiro veio a decepção, depois começou o desespero. Mas, como era mulher de muita fé e fibra, deixou o orgulho de lado e pediu ajuda em uma casa que por coincidência era de um casal do Ceará. Foram acolhidos e Zefa se ofereceu para trabalhar na casa que por sorte estava precisando de uma empregada.

    Assim foi levando a vida como viúva de marido vivo, ou morto sabe lá, e foi criando os filhos sem jamais pensar em voltar, pois não ia passar essa vergonha. Foi à luta e venceu. Jamais voltou a casar ou ter filhos. Conseguiu construir um barraco na favela para onde se mudara depois que arrumou um emprego em Copacabana.

    Austriclinio crescera muito namorador e pouco trabalhador. Desde pequeno acompanhava a mãe quando ela ia para o trabalho e cresceu praticamente nas areias das praias cariocas. Foi assim que chegou à idade adulta com um segundo grau concluído e uma larga experiência na arte de paquerar.

    Mas a vida segue seu rumo e um dia foi bafejado pela sorte quando conheceu uma garota que era uma diva de bonita e rica de origem. Mesmo a família da moça sendo contra o namoro, acabou tendo que aceitar o gajo depois que descobriram que a filha havia embarrigado. Não teve jeito, tiveram que casar para evitar um escândalo maior.

    Casou mas não sossegou. A sogra jurou que não lhe daria trégua e que ele jamais veria um centavo da herança da família. E ficou de campana doida para pegar o elemento numa falcatrua que fizesse a filha despachá-lo para o lugar de onde veio. Nunca aceitou o fato de um filho de migrante nordestino, um “Paraíba” como apelidam todo nordestino no Rio, e diga-se de passagem, no caso um legítimo de origem, pobre, pudesse ter conseguido um romance com sua filha da alta casta carioca e ainda casar. Era demais. Ela de certa forma se fazia de esquecida quanto às próprias origens, já que fora dançarina de teatro nas noites cariocas e atraíra as atenções de um deputado mineiro que ficara rico explorando o jogo do bicho.

    Clinô, como Austriclinio passou a se apresentar, depois de uns tempos de casado e com a mulher em final de gravidez, voltou à velha vida de paquera e passou a pular a cerca de vez em quando. Um dia se mandou para Niterói no meio da tarde com a secretária para uma tarde de amor e sexo em um motel que frequentavam num bairro discreto da cidade. Seguiam pela avenida quando o sinal fechou e Clinô avista quem? A sogra que vinha atravessando na faixa. Ela olhou para ele, botou aquele olhar de vingança e disse pra si mesma: te peguei seu salafrário. Por sorte na época não existia celular.

    Clinô não se fez de rogado, com um aceno de mão cumprimentou a sogra, sorriu e deu apartida no Opalão SS que dirigia.
    De imediato retornou para o Rio e chegou às pressas no escritório de onde ligoupara a mulher:

    Celina tenho uma proposta para lhe fazer; estou com a tarde vaga e me deu uma vontade danada de ir a Niterói com você para  revermos aquele por do sol em Icaraí. Vamos nessa? A mulher achou meio estranho o convite por não ser usual, mas aceitou.
    Em pouco tempo chegou ao escritório no centro da cidade e foram para Niterói.
    Ao chegar ao mesmo cruzamento que havia parado com a secretária, quando o sinal abriu acenou para uma pessoa e arrancou. Ao dobrarem na esquina ela perguntou: Acenou para quem? Ele respondeu: para sua mãe. Seguiram para o programa só retornando à noite para casa.

    A primeira pessoa que encontraram foi a sogra que não poupou e foi logo dizendo para a filha: Celina tenho lhe falado sempre, coração de mãe não se engana. O safado do seu marido estava em Niterói com a vagabunda da secretária em plena tarde.

    Ao que Celina respondeu: Era eu mamãe. A velha retrucou: não estou cega nem louca, pois conheço muito bem vocês dois e não era você.

    Ao que Celina respondeu: ele lhe cumprimentou não foi? Foi respondeu a mãe. Então, foi no cruzamento do sinal na avenida. Era eu. A senhora precisa não perseguir tanto o pobre do Clinô que é um grande homem, é meu marido e me ama.

    A velha engoliu em seco e avisou: desta vez você escapou seu sem-vergonha, mas ainda te pego.

    FIM

     

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  • Volto a escrever no meu blog depois de uma pausa para concluir o meu novo livro. Foi batizado como “Conversa de Matuto”. Está saindo do forno e breve, muito breve estará disponível em papel nas livrarias e como e-book através do site. É um livro de cordel que reúne parte do que eu já publiquei em folhetos e uma parte ainda não publicada.

    Tem mais algumas novidades. Vou lançar uma página com receitas dos diversos rincões que visito por esse Brasil afora na coluna “Culinária em Verso e Prosa”.

    Vem muito mais por aí. Aguardem.

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  • Por volta dos idos de 80, constumávamos nos reunir em família às sextas-feiras e convidar alguns amigos para um joguinho de canastra. Varávamos a noite entre goles de whisky, tira-gosto e boas conversas. Um dos frequentadores assíduos da residência de um primo era um profissional de comunicações muito conhecido no Recife. Chamava-se Fernando Castelão. Ficara famoso por apresentar um dos primeiros programas de TV ao vivo no início da década de 60, o Você faz o Show. Salvo engano era na Tv Jornal do Commercio. Muito bem, Castelão era um grande contador de histórias e tinha uma verdadeira coleção de causos e casos, quase sempre temperados com muito humor e muitas vezes com versos.

    Contou certa vez, que um grupo de cidadãos já na terceira para a quarta idade, costumava se encontrar pelas manhãs na praça de Casa Forte, um bairro nobre do Recife. Reuniam-se aposentados de diversas profissões no amanhecer da capital pernambucana para caminhar e prosear, geramente falando do que já tinham feito. Ocorre que, neste mesmo horário, também costumavam frequentar a praça uma grande quantidade de secretárias do lar que tinham como primeira tarefa do dia, levar os cachorrinhos das madames para passear e descarregar no local enquanto as patroas dormiam. Eram um deleite para os velhinhos. À medida que a idade avança e a vista encurta, as mulheres ficam cada vez mais bonitas. E elas provocavam os vovôs.

    Mas, tinha uma que era especial. Morena com seus 22 anos, alta, altiva, pernas bem torneadas, um charme só. Além disso, tinha uma bunda perfeita, parecia feita à mão por um escultor talentoso. Foi demais para um juiz que também era poeta. Fez uma homenagem justíssima aos atributos da moça. Nunca soube seu nome para dar os créditos ao autor.

    ELEGIE À BUNDA

    Quando ela passa, todo mundo espia

    Não para a cara que não é formosa,

    Mas, para a bunda que é maravilhosa.

    Em bunda nunca vi tanta magia,

    Quebra, requebra, rodopia,

    Numa sensação vertiginosa.

    E deve ser assim uma bunda cor de rosa,

    Da cor do céu quando desponta o dia.

    E ela que sabe que sua bunda é boa,

    Segue faceira e rebolando à toa.

    E eu fico aqui, extasiado e mudo,

    Não pela cara que não vale nada,

    Mas pela bunda, que é o que vale tudo.

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  • Poesia 02.11.2009 No Comments

    Sempre lembro de Olinda com saudades. Nossa Marim dos Caetés de mar gostoso, barzinhos com aquelas agulhinhas fritas, camarões, goiamuns e aquela cervejinha muito, quase estupidamente gelada. Lembro de um amigo angolano que dizia: Ah daqui se olhar com atenção enxergo minha terra ali do outro lado desse mar. E o carnaval? Como esquecer aquelas horas maravilhosas no Bloco da Saudade subindo e descendo ladeiras no tríduo momesco? Nossa querida Olinda, tão pernambucana, de tantos artistas, de tantos valores.

    I

    Subindo a ladeira

    Revendo a saudade

    Encontro a cidade

    Tão bela e fagueira

    Olinda faceira

    De todas as artes

    Acordas no mar

    Dormes seresteira

    II 

    Eterna boêmia

    De poetas mil

    Tuas ruas retratam

    Com ar juvenil

    Aos velhos, aos jovens

    Passado ou presente

    As honras, as glórias

    Do nosso Brasil

     

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  • Poesia 01.11.2009 No Comments

    Viver feliz, sim

    Não por um vão momento

    Diariamente

     

    Viver feliz, sim

    Não fugazmente

    Cada dia, vivendo sorridente

    Semanalmente

     

    Viver feliz, sim

    Não velozmente

    Cada semana passada mansamente

    Mensalmente

     

    Viver feliz, sim

    Não ferozmente

    O mês passando construtivamente

    Semanas numa luta efervescente

    Anualmente

     

    Viver feliz, sim

    Não descontente

    Ano após ano, efusivamente

    O coração amando loucamente

    Correspondido apaixonadamente,

    Eternamente

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  • Folclore 29.10.2009 1 Comment

    Aqui está mais uma das histórias que publiquei no livro “Caçando Jaburu e outras histórias”.                                                                                      

    No ano da graça de 1968, passeando pela feira de Campina Grande na Paraíba dei de cara com um daqueles contadores de histórias tão comuns no Nordeste do Brasil. Normalmente estão vendendo literatura de cordel, uma das manifestações mais puras da poesia popular brasileira.

    O moço nesse caso estava ensinando a jogar no bicho e vendendo uma combinação de palpites prontos com simpatias para os crédulos arriscarem a sorte na busca de acertar uma milhar premiada na cabeça, ou seja, no primeiro prêmio.

    O jogo do bicho é uma contravenção tolerada em todos os estados brasileiros, mas, regulamentada na Paraíba no tempo em que o Dr. João Agripino Maia era governador do Estado.

    Consiste numa loteria com um grupo de vinte e cinco animais em ordem alfabética, cada um representado por um número. Começa com a águia que é a número 01 e termina com a vaca que é a de número 25. A premiação menor é quando se acerta no grupo que paga na maioria das cidades brasileiras R$ 15,00 por cada real apostado.

    A dezena paga R$ 50,00 reais por cada real um jogado, a centena R$ 400,00 e a maior é quando se acerta a milhar do primeiro prêmio que paga em média R$ 4.000,00 por cada unidade de moeda jogada, variando o valor de cidade para cidade.

    Os jogos são divididos em cinco prêmios compostos de uma milhar cada um. Ou seja, pode-se tirar a sorte em qualquer milhar desde que se jogue do 1º ao 5º. Cada animal do grupo é reconhecido por quatro dezenas em ordem crescente mais dois dígitos variando de 01 a 99 compondo a milhar.

    Exemplo: A águia é reconhecida pelas dezenas de terminação 01, 02, 03 e 04, associada a qualquer dezena entre 01 e 99 compondo a milhar. Assim, 0101 é águia, 9901 é águia, 5004 é águia. Somam 400 milhares para cada bicho em cada prêmio, totalizando 2000 milhares nos cinco prêmios e 50000 no total dos 25 bichos. Isso em cada corrida, pois à época eram sorteados três prêmios durante o dia, pela manhã, à tarde e à noite.

    Conta a história que o jogo do bicho foi inventado pelo Barão de Drummond em 1892 no Rio de Janeiro. O Barão era dono do Jardim Zoológico e recebia subvenção da Coroa  para manter tudo funcionando. Com o advento da República a verba foi cortada e o Zoológico passou a ter dificuldades para sobreviver. Foi quando surgiu a idéia de lançar a loteria animal.

    O sonho é um grande aliado do jogador do bicho. Permite as mais diversas interpretações e como às vezes dá certo, segue no imaginário popular como uma grande ferramenta de auxílio para ganhar no jogo.

    O propagandista, como eram chamados aqueles homens que divulgavam produtos na feira, contou a seguinte história:

     Numa cidade do interior da Paraíba morava uma senhora que, de tão viciada no jogo, há um bom tempo não sonhava. Consultara uma cartomante que lhe dissera que na próxima vez que sonhasse, receberia uma indicação de palpite para o jogo do bicho que era líquido e certo. Era só ter um pouco de paciência. Após alguns dias  veio o tão esperado sonho com a seguinte indicação; no dia seguinte a primeira pessoa que lhe “desse as horas”, expressão usada no interior para o cumprimento, daria o palpite do jogo do bicho. Mas, tinha uma recomendação importante; ela não poderia dirigir a palavra a ninguém, senão o palpite não viria. Teria que ter paciência e aguardar, para não quebrar o encanto.

    Ela morava numa rua típica das cidades pequenas do Nordeste do Brasil. Casas geminadas, parede e meia como são conhecidas, calçada única, uma porta principal dividida em duas metades e uma só janela com parapeito largo para apreciar o movimento externo nas horas de folga. A casa era uma das últimas da rua, ficando bem próxima a uma vacaria já quase na área rural da cidade. Em frente à casa tinha um cacimbão que servia de fonte  para quase todo mundo, já que água encanada era uma esperança para o futuro naquele sertão esquecido pelos homens, já que Deus não esquece ninguém. O poço ficava bem embaixo de um grande pé de tamarindo que fazia uma sombra muito larga devido à enorme copa da árvore. Era um verdadeiro oásis naquela fornalha sertaneja do semi-árido paraibano.

    A senhora acordou cedo, no raiar do dia e postou-se na janela esperando o cumprimento salvador que traria o palpite para o jogo vencedor e a sorte grande. Logo os vaqueiros, todos conhecidos, começaram a passar para ordenhar as vacas e para a lida diária e nada. Nem um bom dia, parecia que nunca tinham se visto. As horas foram passando, os filhos acordaram, as pessoas da casa iniciaram suas atividades rotineiras, mas ninguém lhe dirigiu uma só palavra. Parecia que estava invisível, pois nem vizinhos, nem parentes nem amigos lhe dirigiram qualquer cumprimento.

    Decidiu apostar no sonho, permanecendo calada esperando o mensageiro da sorte. Quando o cambista apareceu no início da rua já perto das 11 horas a angústia tomou conta dela, pois estava vendo sua esperança ir embora. Não poderia esperar pelo jogo da tarde, pois a recomendação no sonho era expressa, só vale para o jogo do meio dia.

    Mas, como diz o ditado, “a quem Deus promete não falta”, parou na sua porta um caminhão Chevrolet 46 reduzido pé de bode como era conhecido o modelo da GMC, e o motorista desceu e disse:

    - Bom dia dona Maria. Ela disse para si mesma, é esse, só pode ser.

    A senhora dá licença eu tirar água da sua cacimba para botar aqui no radiador da minha onça? Carro velho no Nordeste é chamado de onça.

    Ela pensou rápido, é ele, não tem erro. No jogo do bicho não tem onça, mas tem os primos, Tigre e Leão, e anotou sem demora para não esquecer.

    Pois não seu Zé, fique à vontade. Ao que o motorista respondeu: vou aproveitar a sua sombra para acertar a Borboleta dessa boca de Jacaré que vem comendo muita gasolina. Ela anotou mais dois no caderninho. Passado algum tempo o motorista e mecânico, dirigiu-se a uma pessoa que vinha em cima da carroceria e que era seu chapeado, como são conhecidos os ajudantes de caminhão e falou:

    Elefante desce daí. Vamos tomar uma para dar fome pro almoço? Vamos patrão, boa idéia. O motorista respondeu:

    Não sabe aquela Gata veia que eu matei o Carneiro dela com o carro? Sei patrão. Pois vá lá na barraca dela pegue uma garrafa de aguardente Touro com tira gosto de Peru pra gente sarrar o Galo nessa cabeça de Porco. O sonho começara a virar um pesadelo depois de tantos palpites.

     Quando Elefante saiu o motorista virou-se para ela e disse: Tá vendo aí D. Maria, esse cabra diz que é Águia, é metido a sabido, mas, não passa de um Burro. Tem 15 filhos, família de Coelho sem condições de sustentar com o dinheiro que ganha. A mulher coitada é magra como uma Cobra, as canelas finas, num tem que ver as canelas de um Avestruz. Nesse ponto da conversa Elefante já retornava com as encomendas e ainda ouviu os últimos comentários. Falando de mim patrão? Não só estava dizendo a D. Maria que você só quer viver da beleza feito Pavão.

    Terminaram de arrumar o caminhão, beber e comer e despediram-se de D. Maria que a essa altura já estava com o caderno cheio. De repente ouviu-se um estampido seguido de um chiado,  e…, acabara de estourar um pneu. Desceram e o motorista constatou que estava sem as ferramentas adequadas para a troca do pneu. Virou-se para Elefante e falou: Elefante, vá lá na casa de compadre Camelo e peça o Macaco dele emprestado, mas, não entre na casa não, pois os Cachorros de lá são brabos e do tamanho de um Cavalo. Ao que Elefante respondeu: Mas patrão, compadre Camelo é muito Urso, não vai querer emprestar o Macaco não.

    Deixe de conversa e vá logo Viado, tá feito Vaca ?

    E assim cumpriu-se a profecia.

    NOTA: Os valores de premiação da história forma pesquisados por ocasião da feitura do livro. Hoje tem cidades que pagam para a milhar 5000×1, a centena 600×1, a dezena 60×1 e o grupo 18 reais por 1 no grupo. Existem ainda uma grande gama de combinações que geram os mais diversos valores de premiação.

    Obs: CONTATO COM O AUTOR: antunios@hotmail.com

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  • Folclore 22.10.2009 2 Comments

    Sempre gostei de ouvir e contar histórias. Umas verdadeiras, outras nem tanto, então fui juntando aqui e ali e acabei fazendo uma coletânea que publiquei no meu primeiro livro cujo título é “Caçando Jaburu e outras Histórias. Aqui vai uma dessas histórias que repasso como me contaram. Se é verdade não sei, mas o cenário é bem real e pode ser visto em muitas cidades do interior do nosso país. Espero que apreciem.

    RESPOSTA ADEQUADA

    Festa de padroeira no interior é sempre o maior acontecimento do ano. Em um país com uma religiosidade tão arraigada como o Brasil, as festas da fé são verdadeiros eventos, onde o religioso e o profano andam lado a lado.

                    Esta história passou-se numa dessas festas em um lugarejo do interior do Nordeste.

                    A festa da padroeira Nossa Senhora das Boas Virtudes durava dez dias. Acontecia sempre nos meses de julho, época menos seca e coincidente com as férias escolares, o que possibilitava receber filhos da terra egressos de outras cidades onde tinham ido morar, estudar e fazer a vida. Vinha gente de todo lugar, incluindo Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife entre outras.

                    A igreja matriz ficava no fim da avenida principal, numa grande praça arborizada com um coreto no centro e um passeio dando uma volta completa, por onde as moças desfilavam de braços dados em grupos, enquanto os rapazes ficavam parados observando e flertando em busca daquela que seria a sua namorada na festa e nos bailes.

                    Diariamente aconteciam novenas, e após o culto religioso a banda de música Lira do Sertão fazia uma retreta animando o local enquanto as pessoas divertiam-se no parque de diversões e bebiam umas e outras nas diversas mesas espalhadas pelas ruas em torno da matriz.

     Nos diversos bares e restaurantes eram servidos ótimos tira-gostos da cozinha regional que incluíam sarapatel, buchada de bode, lingüiça de porco, sem falar em carne de sol com macaxeira, regada por uma excelente manteiga de garrafa.

    Não faltava também um churrasco de carne de bode e carneiro guisado com pirão. Galinha de capoeira com pirão de parida servia para levantar até defunto bêbado, coisa bem comum nos finais de noite. Diz-se que um pirão de parida ou uma cabeça de galo, são perfeitos para evitar ressaca no dia seguinte e agüentar a maratona de bailes e bebedeiras.

    Depois da novena e da retreta a quermesse incluía um leilão de produtos doados pela população para gerar renda para a igreja.

                    Mariazinha era uma moça de poucas posses, mas de beleza destacada no lugar, chamando a atenção da garotada que queria namorar. Embora, ainda não tivesse feito dezoito anos, já demonstrava ser muito esperta e sabia como poucas tirar proveito em certas situações. Tinha arrumado um guarda-roupa razoável para agradar os pretendentes durante a festa, mas, faltava-lhe um componente essencial para aparecer bem no último dia da festa na praça e no baile; um belo par de sapatos.

    José era o que se podia chamar de  pessoa do bem. Vivia lá no sítio da família, levando uma vida simples cuidando do gado e das criações. Já tinha algumas cabeças próprias para negociar e fazer um dinheiro para gastar na festa e doar um pouco para as obras da Santa Madre Igreja.

    Só ia à cidade quando tinha negócios ou nas ocasiões festivas. No último sábado da festa, levou sua mercadoria para vender na cidade na feira pública que acontecia durante todo o dia.

    Alguns quilos de carne de cabrito, dois carneiros já tratados, uns trinta quilos de queijo que tinha feito com o leite das vacas, uma carne de sol de primeira e umas garrafas de manteiga. Somava-se ainda lingüiça sertaneja e umas latas de chouriço, um doce muito apreciado feito com sangue de porco, farinha de gergelim, açúcar e castanha de caju assada.

    Vendeu tudo antes das duas da tarde e apurou uns cento e cinqüenta contos de reis. Um conto de réis correspondia a um mil cruzeiros da época em que se chamava cinqüenta centavos de quinhentos réis.

    Botou o dinheiro no bolso e seguiu feliz para o centro da cidade para comprar a roupa que iria vestir à noite na festa. Estava olhando as vitrines quando viu Mariazinha e ficou literalmente encantado, com um olhar de bobo, como se tivesse visto visagem. Ela o estava fitando com um largo sorriso nos lábios carnudos de cabocla bem criada. Virou de lado para ter certeza que era para ele que ela estava realmente olhando. Era, não havia dúvidas, a festa começara bem para Dedé como era conhecido entre os amigos.

    Por ser sempre bem intencionado, costumavam lhe pregar peças e alguns por maldade o chamavam de Dedé Besta, porque sempre era vítima das brincadeiras de mau gosto. Diziam até que uns versos atribuídos ao poeta Moisés Sesiom teriam sido dedicados a ele, dada a tamanha leseira que costumava aparentar.

     

    Andei procurando um besta,

    Um besta que fosse capaz,

    De tanto procurar um besta,

    Encontrei este rapaz,

    Que nem pra besta serve,

    Porque é besta demais.

     

    Ela foi logo puxando conversa com ele.

    Você vai para a quermesse hoje?

    Dedé respondeu: Vou, só falta comprar a roupa, e você?

    Mariazinha respondeu:

    Estou doida pra ir, mas, tem um problema, tenho vestido, mas, não tenho sapato. Talvez tenha que ficar em casa.

    Acabara de jogar o laço

    Falou Dedé:

    Por isso não, se eu lhe der o sapato, você se encontra comigo lá?

    Ela respondeu:

    Com toda certeza, à noite nos encontraremos no leilão da quermesse.

    Então vamos à sapataria, chamou Dedé.

    Ela o guiou rua abaixo na direção da melhor sapataria da cidade. O ponto era famoso na venda de sapatos para as moças da cidade, donzelas ou não, pois encontravam produtos da moda usados nas principais cidades do país. Era evidente que os preços também não eram os mais baratos.

    Ela dirigiu-se à vendedora e já foi pedindo o par de sapatos que já estava separado. Pronto Dedé é esse aqui que eu quero. Pode pagar e à noite nos encontramos conforme combinado. Agora tenho que ir.

    A vendedora apresentou a conta a Dedé que quase morreu de susto quando viu o preço. Setenta contos de réis custava o sapatinho da moça. Era um presente muito caro para quem tinha apurado menos de cento e cinqüenta e ainda tinha alguns gastos para honrar. Mas, agora estava sem jeito. Tirou os cobres do bolso, pagou e saiu pensativo com uma estranha sensação de que tinha sido enrolado. Teria que esperar até à noite para saber.

    Arranjou-se como pode para pagar as contas e comprar sua própria roupa com o pouco que lhe restou, Ficou quase sem dinheiro para gastar no leilão. Encontrou seus amigos e contou-lhes só a parte boa, que tinha arranjado uma tremenda gata para namorar à noite, uma das mais bonitas da cidade. Todos ficaram curiosos e com uma ponta de inveja. Afinal, ainda não tinham conseguido nada.

    Chegou o tão esperado momento. A ansiedade era indisfarçável e Dedé não via a hora de encontrar Mariazinha e mostrar aos amigos a sua grande conquista.

    Ao chegarem ao pátio do leilão lá estava ela, linda em seu vestido de festa e os sapatos brilhando nos pés. Estava rodeada de amigas e de braços com outro e pelo jeito carinhoso dava a entender que era namorado. Foi uma ducha de água fria para Dedé. Ela acenou levemente para ele e desviou a atenção para o leilão.

    Entre uma oferta e outra, havia um espaço para recados, música e participação do público. Num desses intervalos Mariazinha dirigiu-se ao palco, pegou o microfone e anunciou que ia fazer uma homenagem.

    Senhoras e senhores, queridos amigos, quero fazer uma homenagem especial a uma pessoa, que possibilitou a minha presença aqui hoje à noite. É para você Dedé a quadrinha que vou recitar.

     

    Sapato de setenta contos,

    Só quem tem aqui sou eu,

    De braços com quem eu gosto,

    Olhando pra quem me deu.

     

    Foi uma facada pelas costas. Todos riram à vontade, principalmente os que já sabiam do golpe que ela dera no pobre do matuto.

    O locutor anunciou que o direito de resposta para agradecer estava garantido e disponibilizou o microfone para Dedé falar.

    Extremamente contrariado com o papelão que tinha feito, considerou: barco perdido, bem carregado, pensou.

    Senhoras e senhores agradeço a oportunidade para falar e poder responder à altura da homenagem de Mariazinha, e recitou:

     

    Sapatos de setenta contos,

    Só quem tem aqui és tu,

    Custou-me o suor do rosto,

    E as pregas do seu cú.

     

    Estava vingado.

     

     

     

     

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