• Em temporada de Copa do Mundo, vamos relembrar um fato que supostamente aconteceu, mas, se não foi totalmente verdadeiro, eu diria que a ficção ficou só por conta dos personagens, pois o jogo foi real.

    CAMPEONATO ROUBADO

     

     

    Existia um gringo egresso da Europa oriental que militou por muitos anos no futebol do nordeste do Brasil. Conhecia como poucos as malandragens do futebol e sabia tudo o que ocorria nos bastidores e porões do famoso esporte bretão.

    Certa vez correu uma história que, segundo diziam, fora contada por ele e se referia a uma final de campeonato ocorrida em um estado da região onde um dos times fora roubado descaradamente.

    O fato era o seguinte:

    Pela primeira vez o campeonato seria decidido fora do eixo das duas maiores cidades do Estado, a capital no litoral e uma cidade do agreste de grande importância econômica, cultural e financeira, onde ficavam os três melhores times do Estado. A ida da decisão para uma cidade pequena no interior era inédita e dava pela primeira vez a esperança da conquista de um título por um time pequeno e sem tradição.

    A população toda se mobilizou para buscar a conquista do tão sonhado campeonato. Entretanto, como ocorre até os dias de hoje, havia uma grande preocupação com o juiz que apitaria o jogo, pois os árbitros eram escolhidos na Federação que ficava na capital, bem perto dos interesses dos grandes clubes. Havia um sentimento na visão dos torcedores de que, o juiz geralmente favorece o clube grande de mais tradição.

    Para minimizar esse risco, solicitaram à Federação a contratação de um juiz de outro Estado , preferencialmente do Rio de Janeiro que era na época, a Meca do futebol brasileiro. O presidente da federação concordou para acalmar os ânimos. O juiz viria do Rio de Janeiro para Recife e ele em pessoa o escoltaria da capital pernambucana até o local do jogo. Falavam também as más línguas que o presidente do time adversário viajara no mesmo vôo. De Recife o juiz foi levado de carro pelo presidente da Federação para a cidade onde ocorreu o evento.

    A cidade estava em festa. Contavam com a vantagem da torcida fanática, o time jogando em casa, e o campo quase sem grama, com os buracos bem conhecidos pelo pessoal local e um perigo para os jogadores mais sofisticados do time grande acostumados com grama macia e bem tratada. Ali se praticava literalmente o famoso futebol de poeira como eram chamados os jogos no estádio municipal, dadas às condições do campo.

    Chegou o dia do jogo, tão esperado por todos. Uma vitória por qualquer placar daria o campeonato ao time da cidade anfitriã. Qualquer outro resultado consagraria o time visitante, tantas vezes campeão.

    No entanto pairava uma pergunta no ar: E se o juiz roubasse? Ele não sairia inteiro de lá. Não tinha como escapar. Logo ao chegar fora avisado, se roubar morre, pois vamos estar de olho, declarou o chefe da torcida organizada local.

    Nunca um título estivera tão perto de ser conquistado por um time fora do eixo dos grandes. Parece que dessa vez David venceria Golias mais uma vez, reeditando a famosa passagem bíblica.

    O time da casa tinha poucos destaques entre os seus esforçados atletas. Entretanto, dois merecem ser lembrados:

    O primeiro era o ponta esquerda, que era um raio. Um metro e cinqüenta e seis centímetros de pura velocidade, embora seu talento para jogar não fosse tão grande quanto a facilidade com  que abraçava umas garrafas da branquinha, conseguidas em um engenho próximo. Mas, fazia lá os seus gols, graças à rapidez que chegava à área adversária. Não era brilhante, mas, servia. Certa vez o técnico de um time do Recife o viu jogando e disse: Se tivesse um centímetro de inteligência seria o melhor jogador do mundo. Nessa estória ele é o Zé do Mé.

    O outro era o beque central, que tinha como principal habilidade dar de bico na bola, costume aprendido na usina de açúcar de uma cidade próxima onde deu seus primeiros chutes. Seu lema era: “bola pro mato que o jogo é de campeonato”. Avisado sobre a força do ataque do time visitante, prometera solene: “Não passarão”, lembrando a famosa frase de Dolores Ibárruri, conhecida como La Passionária, figura lendária da guerra civil espanhola. Devido ao número da chuteira que calçava, 45, ficou conhecido como Zé Pezão.

    O time visitante não cantou de galo, ficou como uma raposa na espreita, esperto esperando a vez de dar as cartas e ganhar mais um campeonato. Tinha o melhor elenco, a melhor campanha, ganhara dois dos três turnos e levava a vantagem do empate. Já entrava em campo com a mão na taça. Seus jogadores vinham de vários estados, sendo alguns de Pernambuco, outros do Ceará, além de Bahia e São Paulo. Pessoal experiente, ganhando bons salários e gordos bichos nas vitórias e às vezes até nos empates.

    Time profissional, usava uniforme padrão de primeira linha vindo de São Paulo, com destaque para o patrocínio de empresa estampado no peito como acontece até os dias de hoje. Era o que tinha de melhor no Estado.

     Dentre os vários destaques tinha um meia esquerda que era a estrela do time. Crioulo cheio de ginga e um ego do tamanho do Maracanã. Será chamado aqui de Zé Quelé em homenagem a um dito popular conhecido no interior que diz que quando a pessoa é besta “só quer ser as pregas de Quelé”. Além de boçal, ele tinha a convicção de que o juiz estava comprado e o jogo seria tranqüilo, mesmo parecendo uma coisa difícil de acontecer dada as circunstâncias da partida. Mas,… em futebol tudo é possível.

    Começa o jogo após o tradicional minuto de silêncio que sempre aparece nesses eventos. Sem esquecer que todos cantaram o hino nacional, perfilados como soldados, mão no peito como verdadeiros patriotas. Ou pelo menos fingiram que cantaram, pois a maioria dos jogadores nem conhecia as primeiras estrofes do nosso querido hino.

    No primeiro ataque do time visitante Zé Pezão divide a bola com Zé Quelé que faz corpo mole e cai na maior encenação. Todo mundo viu que a jogada foi viril, mas na bola. Só um cego veria diferente. Mas o juiz marcou a falta em cima da linha, frontal ao gol. A torcida reclamou porque o zagueirão nem tocou no outro jogador. Os primeiros gritos de ladrão ecoaram no estádio, somados a diversas homenagens à progenitora do árbitro, alem de ameaças diretas. Cartão amarelo para Pezão que reclamou, embora com justa razão. O azeite para fritar o juiz começara a ser aquecido.

    Enquanto isso, Quelé ajeitou a bola displicente, afastou-se meio metro e esperou o a autorização. Partiu para a bola crente que ia fazer o gol. Chutou um metro acima da trave para alívio da torcida local. O jogo continuou, bola pra lá, bola pra cá e novo ataque do campeão. O lateral direito entrou  impedido, recebeu a bola, deslocou o goleiro e cruzou para Quelé na marca do pênalti que também estava totalmente na banheira e só com a trave à sua frente. A derrota parecia decretada, pois so estavam ele, a bola e a trave. O que aconteceu em seguida ninguém poderia prever. O atacante isolou a bola com violência e ela caprichosamente bateu no travessão e foi para fora. O impedimento fora escandaloso, o bandeirinha tinha marcado e o juiz ignorou. Começava a ficar claro que o Sr. Árbitro havia sido comprado. Não dava para pensar diferente. O jogo continuou e terminou o primeiro tempo. O juiz saiu do campo para o vestiário aparentemente protegido pela polícia.

    Começa o segundo tempo e mal a bola rola, Quelé, sempre ele, avança em direção à área adversária e é travado na hora de finalizar. Cai escandalosamente e a falta é apitada. Os jogadores cercam o juiz, pois a jogada fora nitidamente na bola, corpo a corpo normal, mas não adiantou. Mais dois cartões amarelos para o time da casa, serviram para acalmar os ânimos e aumentar a ira da torcida.

    Quelé abriu distância, correu e bateu na bola com violência em direção ao ângulo superior direito. Mas o goleiro num esforço espetacular voou para desviá-la para escanteio. O 0 X 0 continuava mantido. O time da casa animou-se e partiu para o ataque. Bola lançada nas costas do zagueiro e Zé do Mé, o veloz ponta esquerda aparece por trás da zaga pega a bola e parte célere em direção ao gol. Executa o goleiro e a bola vai para o fundo das redes. O grito de gol ecoa no pequeno estádio seguido de um ohhh de frustração. O gol fora anulado. Impedimento, dado pelo bandeirinha e confirmado pelo juiz. Jogada difícil porque Zé do Mé era um raio e partira da mesma linha dos zagueiros. Sem jeito. O gol foi anulado.

     Assim que o tiro de meta foi batido diante da população indignada, a bola foi lançada para Quelé que estava novamente totalmente impedido. A jogada foi interrompida e o meia, estrela do time visitante veio com tudo para cima do juiz que sem pestanejar puxou o cartão vermelho e o expulsou. A confusão estava formada, mas não adiantou. O campeão estava com dez e  sem o seu melhor jogador. Zé Quelé fora mandado mais cedo para o chuveiro. A tensão aumentou no campo, mas como era de se esperar alegrou a torcida local que voltou a ter esperanças na conquista do campeonato. Agora começaram a acreditar que o juiz era honesto, não tinha sido comprado. Afinal, expulsar o melhor jogador do time visitante, do todo poderoso campeão não era pra qualquer um. E ainda dera mais dois cartões amarelos para os que reclamaram.

    O jogo ficou mais tenso, com jogadas ríspidas lá e cá, mas nada de perigo para os goleiros. A bola não saía do meio do campo e da intermediária devido ao grande número de faltas de parte a parte.

    Já no finalzinho do tempo regulamentar, uma bola foi cruzada sobre a área do time da casa e um jogador do time visitante chocou-se com Zé Pezão e caiu. Sem pestanejar o juiz marcou o penalty, para tristeza geral da torcida da casa. O atacante ajeitou a bola com carinho e afastou-se olhando no vazio para não encarar o goleiro nem dar dica em que canto iria chutar. O apito soou autorizando a cobrança e fez-se um silêncio mortal no estádio. O atacante correu e bateu firme na bola. Gol e 1X0 para o time visitante. O sonho virara pesadelo, pois mais uns poucos minutos e o jogo acabou. Restavam as lágrimas da frustração para a população da cidade. O time visitante, tantas vezes campeão, vencera mais uma vez. Enquanto festejavam, o juiz retirou-se discretamente sem chamar a atenção. No geral fizera um bom jogo aos olhos da torcida.

    Ao voltar,  encontrou-se com o dirigente do time campeão que pagara por seus préstimos que foi logo perguntando: Você enlouqueceu? Expulsou nosso melhor jogador, quase pôs tudo a perder! Ao que o juiz respondeu: Qual era o seu objetivo? Não era o campeonato? Você o tem. Marquei duas faltas inexistentes e deixei passar um impedimento escandaloso e seu jogador desperdiçou as três oportunidades. Se eu marcasse o pênalti com ele em campo, quem iria bater? O cartola respondeu: ele é claro, pois é o batedor oficial da equipe. O juiz retrucou: e ele com certeza iria perder, pois não era o dia dele. E eu como ficaria? Como iria arranjar outro penal? O seu negócio era seu time ganhar o campeonato. O meu era ganhar meu dinheiro e sair inteiro, sem agressões da torcida local. Meta atingida.

    A corrupção vencera mais uma vez.

     

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  • MOTE

    Marcolino é rapaz muito garboso

    Protetor, defensor das perseguidas

    I

     O menino chegou botando banca

     Encerrando a era de quarenta

     Começou a crescer lá nos cinqüenta

     E mamou na mãe negra e na mãe branca

     Resolvendo fazer ninguém estanca

     Encontrou na mulher da sua vida

     O seu porto, seu amor, sua guarida

     Que é também o seu bem mais precioso

     Marcolino é rapaz muito garboso

     Protetor, defensor das perseguidas

    II

    Foi vivendo e forjando seus princípios

    Numa luta tenaz trabalhadeira

    Retratada de forma verdadeira

    Construída com muitos sacrifícios

    Uma história com erros, mas sem vícios

    Sob a benção da mãe compadecida

    Enfrentou sua guerra, sua lida

    Se esforçou, foi valente e corajoso

    Marcolino é rapaz muito garboso

     Protetor, defensor das perseguidas

     III

    Namorou com Maria Antonieta

    Chateou o chefão Napoleão

    Que mandou lhe prender lá no porão

    Empurrado, estocado em baioneta

    Sob o toque tristonho da corneta

    Viu chorar muitas damas desvalidas

    Condenado de forma descabida

    Num processo pra lá de duvidoso

    Marcolino é rapaz muito garboso

     Protetor, defensor das perseguidas

    IV

    Brasileiro que é bom, tempo não nega

    Os sessenta chegaram em bom momento

    Tudo em paz, sem ter dor nem sofrimento

    Vai em frente, não cai nem escorrega

    Ao amar não se rende, só se entrega

    Namorou Bernadete e Margarida

    Conheceu e gostou de dona Ida

    Num forró pé de serra bem famoso

    Marcolino é rapaz muito garboso

     Protetor, defensor das perseguidas

     

    Natal/RN, 21 de novembro de 2009

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  • Todo bom engenheiro de obras tem alguma coisa para contar. Nos anos setenta rolava o PLANASA em Recife e presenciei uma cena que só acreditou quem viu. Contei em prosa no livro Caçando Jaburu e outra Histórias e vai aqui nos versos do cordel. 

    A ANTENA DA RADIO FALOU SOZINHA

    I

    Prezado amigo leitor

    Que me dá sua atenção

    Aconteceu no Recife

    E eu narro com emoção

    No bairro Casa Amarela

    Desse querido rincão

    II

    Estava em curso o PLANASA

    Pra fazer saneamento

    A COMPESA trabalhava

    Pra cumprir o fundamento

    Na Rua da Harmonia

    Só tinha cano e cimento

    III

    Ali com as valas cavadas

    No meio de água e lama

    A gente montava os tubos

    Pra levar água bacana

    Para os lares de Recife

    Que antes tinha má fama

    IV

    Má fama da água ruim

    Servida sem tratamento

    Que tinha muitas doenças

    Matando a todo o momento

    Homem, mulher e menino

    Sem qualquer constrangimento

    V

    O Recife padecia

    Com águas de muitas cheias

    Dos dois rios e canais

    Que corriam em suas veias

    Pelas ruas e avenidas

    E a coisa ficava feia

      VI

    Ali ninguém escapava

    Nem o pobre, nem o rico

    A lama cobria tudo

    Com lixo, merda e pinico

    De dia o pobre chorava

    De noite chorava o rico

    VII

    A cheia veio em setenta

    Depois em setenta e dois

    Vinha quase todo ano

    Não deixava pra depois

    Pra resolver a parada

    O governo se propôs

    VIII

    Precisava construir

    Barragens pra segurar

    A cheia quando ela vinha

    Para tudo inundar

    Foi feita uma em Carpina

    E outra em Tapacurá

    IX

    Essa água toda junta

    Precisava tratamento

    Pra população beber

    Sem passar por sofrimento

    Água vinda pelo cano

    E não no lombo do jumento

    X

    Lá no caminho dos canos

    Bem pertim duns pés de coco

    Tinha uma antena de rádio

    No riacho do Cavouco

    Podia matar de choque

    Todo cuidado era pouco

    XI

    E foi montando esses canos

    Que eu então presenciei

    Uma coisa tão incrível

    Quase não acreditei

    Ouvi a rádio falando

    Mas o rádio eu não liguei

     XII

    Raimundo peão do pixe

    Um cabra muito tinhoso

    Resolveu fazer um teste

    Pra ver se era perigoso

    Pulou a cerca de arame

    Era muito curioso

    XIII

    Ali no pé da antena

    Ele achou que era bacana

    Quando avistou os dois ferros

    Meio enterrados na lama

    Ver se ali dava choque

    Com um cipó de gitirana

    XIV

    Ao encostar o capim

    No meio das duas barras

    O fogo saiu de dentro

    Revelando as suas garras

    Parecia um raio do céu

    Se soltando das amarras

    XV

    Raimundo pulou de lado

    Enquanto o fogo estalava

    Então se ouviu o som

    Que da antena emanava

    Era que mesmo sem rádio

    Aquela peste falava

    XVI

    Quase ninguém acredita

    Nessa história verdadeira

    Que aconteceu no Recife

    Num dia de quarta-feira

    O povo diz que é mentira

    Coisa sem eira nem beira

    XVII

    Acreditem meus leitores

    Quando ouvi aquele som

    Saindo dali sem nada

    Num volume muito bom

    Era a PE ERRE A oito

    Tocando um samba do Tom

     

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  • Um amigo de meu primo me propôs fazer uma poesia sobre o seguinte Mote:

    UM NINHO DE PAPA CAPIM

    COM DOIS PAPA CAPIM DENTRO

    Para quem não sabe o Papa Capim é um pássaro muito canoro. Ficou assim a poesia dos Papa Capim

    I

    Nossa fauna brasileira

    Tem passarim a vontade

    Em grande variedade

    Cantam de toda maneira

    Uma ária seresteira

    No abrigo ou ao relento

    Sob a chuva ou sob o vento

    No quintal e no jardim

    Um ninho de Papa capim

    Com dois Papa capim dentro

    II

    Canário belga , sanhaço

    Sabiá e tuiuiú

    O canto do uirapuru

    Composto em belo compasso

    Tem na mata seu espaço

    Propaga seu som ao vento

    Num canto com sentimento

    Na mata espera por mim

    Um ninho de Papa capim

    Com dois Papa capim dentro

    III

    A caatinga no inverno

    É verde e muito florida

    Reproduz e gera vida

    No seu espaço materno

    Refazendo o ciclo eterno

    Produz muitos nascimentos

    E naquele lindo evento

    Avistei perto de mim

    Um ninho de Papa capim

    Com dois Papa capim dentro

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  • Por mais estranho que possa parecer, os triângulos amorosos são bem comuns no interior. Conheci até quartetos nas minhas andanças pelo interior do Brasil. A história de Zefa e Chico retrata o abandono que, muitas vezes, as mulheres sofrem por parte de maridos ignorantes e com uma cultura de que mulher é só para parir e servir.

    I

    SEU DOTÔ VOU LHE CONTÁ

    O QUI AQUI SE ASSUCEDEU

     POIS DE FATO ACONTECEU

    CUM CHICO PÉ DE PREÁ

    QUI RESORVEU SI INGRAÇAR

    DE ZEFINHA DE DUDÉ

    MODE AS ANCA DA MUIÉ

    QUI REBOLA QUANO PASSA

    ANDANO CHEIA DE GRAÇA

    E MUITO PEREQUETÉ.

    II

    ERA UMA NOITE ISTRELADA

    FESTEJANO A PADROEIRA

    MUITA CACHAÇA BREJEIRA

    E QUEIJO CUM MARMELADA

    TINHA CERVEJA GELADA

    TIRA GOSTO DE GALINHA

    CUM FARINHA BREJEIRINHA

    NUM PIRÃO MUITO ARRETADO

    GOSTOSO E APIMENTADO

    PREPARADO POR ZEFINHA

    III

    VEI UM PADE LÁ DA FRANÇA

    VEI PULIÇA, DELEGADO

    MAIS UM CABO E TRÊS SORDADO

    PRA GARANTIR SIGURANÇA

    DE MUIÉ ,VÉI E CRIANÇA

    E DE MATUTO BRIGÃO

    COMO ZÉ DA CONCEIÇÃO

    QUI FICAVA IMBRIAGADO

    FALANO TODO INROLADO

    E DIZENO PALAVRÃO

    IV

    TODO MUNDO TAVA ARMADO

    UM CUSTUME DO SERTÃO

    CUM REVORVE E MOSQUETÃO

    E PUNHÁ MUITO AFIADO

    FACA E FACÃO AMOLADO

    SE UM CABRA ASSIM BEM VISTIDO

    LEVA UMA GAIA ISCONDIDO

    CUM CERTEZA SI APERREIA

    QUER LOGO METER A PEIA

    FICÁ BRABO E ATRIVIDO

     V

    DUDÉ FI DE BIU CANINHA

    É CABRA MUITO DISPOSTO

    POR ZEFA TEM MUITO GOSTO

    CONHECEU ELA NOVINHA

    CUM SUA PRIMA RITINHA

    NUM FORRÓ DE PÉ DE SERRA

    O MIÓ DAQUELA TERRA

    NUMA NOITE DE SÃO JOÃO

    QUANDO SOLTAVA ROJÃO

    QUI PARECIA UMA GUERRA

    VI

    CUMEÇARO A NAMORÁ

    E FORO LOGO CASANO

    CUM ZEFA EMBARRIGANO

    QUAJI NO PÉ DO ALTÁ

    DUDÉ BUTOU PRA QUEBRÁ

    PRA ZEFA NUM DEU MOLEZA

    ERA SÓ NA SAFADEZA

    NO QUINTÁ E NA ALCOVA

    POIS TESÃO DE MUIÉ NOVA

    NUM ISFRIA COM CERTEZA

    VII

    QUANO ZEFA SI CASÔ

    TINHA FEITO DIZESSETE

    DUDÉ TINHA VINTE E SETE

    E O CASÁ SE CUMPRETÔ

    O VIGARO ABENÇOOU

    NOVA FAMIA FORMADA

    CUM ZEFA JÁ IMPRENHADA

    NUM BUCHO DE MAIS DE MÊS

    DUDÉ NUM PERDEU A VEZ

    TINHA INXIDO A NAMORADA

    VIII

    OS ANO FORO PASSANO

    A VIDA SEGUINO IN FRENTE

    ZEFA VIVENO CONTENTE

    SUAS CRIANÇA CRIANO

    UM BRUGUELO A CADA ANO

    JÁ TINHA SEIS NA NINHADA

    E DUDÉ NA CACHORRADA

    VIVIA RAPARIGANO

    E MUNTA CANA TOMANO

    CUMA PUTA AGALEGADA

     IX

    NUM DEMORÔ MUNTO NÃO

    CUMEÇARO OS MIXIRICO

    VIZIN FAZENO FUXICO

    DAQUELA SITUAÇÃO

    SE ZEFA SABIA OU NÃO

    NUM CUMENTAVA NADINHA

    SOFRIA MERMO SOZINHA

    SEM INFORMÁ PRAS CRIANÇA

    QUI O PAI VIVIA NA DANÇA

    NO CABARÉ DE ROSINHA

    X

    DUDÉ PUXÔ E ARRASTÔ

    TODAS MANIA DO PAI

    POIS TODA NOITE ELE VAI

    PRO BUTECO DE NESTÔ

    ZEFA FICA NO TRICÔ

    ELE SE FAZ DE BACANA

    VAI INCHER O CÚ DE CANA

    IGUALZIM A BIU CANINHA

    VAI DIRRUBANO A BRANQUINHA

    E FAZENO JUS A FAMA

    XI

    ADISPOIS DE INCHER A CARA

    SEGUE DIRETO PRA ZONA

    LÁ INCONTRA AQUELAS DONA

    QUI VEVE IN RIBA DA VARA

    CUM DUENÇA QUI NUM SARA

    DE CHANHA INTÉ GONORRÉA

    INCARA QUALQUER BORRÉA

    SI SINTINO UM GARANHÃO

    MAS NUM PASSA DUM CAGÃO

    QUI VEVE CUM DIARRÉA

    XII

    A COISA FICÔ DIFICE

    POIS ZEFA ACABÔ SABENO

    SIGUIU IN FRENTE SOFRENO

    PRO MODE O DISSI MI DISSI

    POIS INTÉ CUMADE EUNICI

    DISDIBUIOU A ISTORA

    GORA JÁ TAVA NA HORA

    DI CUNVERSÁ CUM DUDÉ

    SABÊ O QUE QUELE QUÉ

    SI ACERTÁ SEM DEMORA

     XIII

    ZEFINHA TAVA PENSANO

    COMO FALÁ CUM DUDÉ

    POIS CUMA ERA MUIÉ

    TINHA QUI SIGUI LUTANO

    NO BATENTE LABUTANO

    INTÉ ARRUMÁ AS PROVA

    PRA SEM POESIA NEM PROSA

    INQUADRÁ O ELEMENTO

    DISPACHÁ SEM DOCUMENTO

    E CUMEÇÁ VIDA NOVA

    XIV

    MAS ANTES DE ARRESORVÊ

    A PARADA CUM DUDÉ

    ZEFINHA SIGUIA A PÉ

    TENTANO A DÔ ISQUECÊ

    SORRINO PRA ISPARECÊ

    QUANO VIU CHICO PREÁ

    QUI VINHA BEM DIVAGÁ

    CUM SEU SORRISO BANGUELA

    DURIM OLHANO PRA ELA

    CUMA QUEM QUÉ SI ABRAÇÁ

    XV

    FOI AÍ QUI ACONTECEU

    OS ZOI DOS DOIS SE INCONTROU

    ZEFINHA SE ARRUPIOU

    I CHICO FICOU TREMENO

    CUM AS PESTANA BATENO

    I CUMEÇÔ A GAGUEJÁ

    SEM AS PALAVRA INCONTRÁ

    MERMO ASSIM DISSI BOM DIA

    CUMA VAI FULÔ DO DIA

    NOIS IXISTE PRA SI AMÁ.

    XVI

    ZEFINHA NEM DEU OUVIDO

    CONTINUOU SEU PASSEIO

    POIS O MUNDO TAVA CHEIO

    DE CABORÉ INXIRIDO

    E DE CABRA JÁ VIVIDO

    DOUTÔ EM PAQUERAÇÃO

    CUM MUNTA CUNVERSAÇÃO

    PROMETE O MUNDO E O FUNDO

    AMOR ETERNO E PROFUNDO

    E MUNTA BADALAÇÃO

     XVII

    O CHICO ERA BOM SUJEITO

    ERA BOM TRABAIADÔ

    NUM ISTUDÔ PRA DOUTÔ

    MAS APRENDEU DO SEU JEITO

    A LÊ I ISCREVÊ DIREITO

    MAIS AS QUATRO OPERAÇÃO

    MERMO CONTA CUM FRAÇÃO

    JÁ RESORVIA NA HORA

    CUM PROVA DE NOVES FORA

    SEM ERRÁ NA TRANSAÇÃO

    XVIII

    O CHICO PÉ DE PREÁ

     SEMPRE GOSTOU DE ZEFINHA

    DERNA QUI ERA NOVINHA

    ELE PENSOU NAMORÁ

    PORÉM AGIU DIVAGÁ

    E DUDÉ CHEGÔ PRIMERO

    NAMORÔ CASÔ LIGERO

    NUN DEU CHANCE PRU PREÁ

    QUI TEVE QUI AGUENTÁ

    I FICÁ RAPAZ SORTERO

    XIX

    O TEMPO É GRANDE ALIADO

    VIRTUDE É TÊ PACIENÇA

    DEPOIS CHEGA A RECOMPENSA

    COMO BEM DIZ O DITADO

    O CHICO ISPERÔ SENTADO

    SEM PERDÊ A ISPERANÇA

    QUI TINHA DESDE CRIANÇA

    DE SI AJUNTÁ CUM ZEFINHA

    NUMA CAMA BEM QUENTINHA

    PRA FAZÊ UMA LAMBANÇA

    XX

    ENFIM O DIA CHEGÔ

    NA FESTA DA PADROERA

    NA PRAÇA PERTO DA FEIRA

    CHICO A MORENA AVISTÔ

    POIS ZEFINHA SEU AMÔ

    TAVA PARADA SOZINHA

    ISPIANDO PRA BANDINHA

    QUI TOCAVA NA RETRETA

    UM DOBRADO BEM PORRETA

    NO CORETO DA PRACINHA

     XXI

    O CORAÇÃO BATEU FORTE

     I SEM VÊ DUDÉ PU PERTO

    ARRESORVEU SÊ ESPERTO

    E ARRISCÁ SUA SORTE

    MERMO CUM RISCO DE MORTE

    O TESÃO ERA MAIÓ

    E SEM PENSÁ NO PIÓ

    CHEGÔ JUNTO DE ZEFINHA

    ABRAÇÔ A MORENINHA

    SEM MUNTO POROCOTÓ

    XXII

    DE INIÇO ELA ASSUSTÔSSE

    QUIS SI SORTÁ DO ABRAÇO

    CHICO CUNS NELVOS DE AÇO

    FALÔ CUMA FALA DOCE

    A MINHA ISPERA ACABÔSSE

    VAMO SI AMÁ AGORA

    POIS INTÉ PASSÔ DA HORA

    DI NÓIS DOIS FAZÊ AMÔ

    PURQUE DESPOIS QUI NÓIS FÔ

    VOCÊ NUM MI MANDA IMBORA

    XXIII

    ZEFINHA NUM RISISTIU

    FOI PRU BARRACO DI CHICO

    DEPOIS DE TANTO FUXICO

     SUA VERGONHA SUMIU

    RESOVEU DÁ O XIBIU

    PARA QUEM GOSTAVA DELA

    O VELHO CHICO BANGUELA

    QUI TINHA O PÉ DE PREÁ

    TRANSÔ SEM SI INCABULÁ

    CUM CORAGE SEM CAUTELA

    XXIV

    DEPOIS DA NOITE DE AMÔ

    ZEFINHA VOLTÔ PRA CASA

    PUR POUCO NUM SI ATRASA

    POIS LOGO DUDÉ CHEGÔ

    PARECE QUI ADVINHÔ

    JÁ FOI CHAMANDO ZEFINHA

    VEM CÁ MINHA GOSTOSINHA

    PRA NOSSO ATRASO TIRÁ

    TÔ PRONTO PRA NÓIS TRANSÁ

    DÁ UMA BEM RAPIDINHA

     XXV

    ZEFINHA DISSI NUM DÁ

    POIS TÔ CUM DÔ DE CABEÇA

    PUR HOJE VOCÊ MI ISQUEÇA

    QUI EU NUM VÔ NAMORÁ

    TOME UM BAIN PRA MILHORÁ

    DESSE CHERO DE TITICA

    POIS HOJE ESSA PIRIQUITA

    NUM DÁ PRA VOCÊ USÁ

    VÁ DURMI PRA DISCANSÁ

    DESSA CACHAÇA MARDITA

    XXVI

    DIPOIS DE PASSADO UNS DIA

    DUDÉ FICOU MAIS CASERO

    POIS JÁ TAVA MEIO CABRERO

    CUM O QUI ACONTECIA

    POIS ZEFINHA REPELIA

    TODA VEZ QUI ELE TENTAVA

    DIZIA QUI ASSIM NUMA DAVA

    QUI NUM TAVA BEM DISPOSTA

    I DAVA O NÃO POR RESPOSTA

    DUDÉ NUM SI CONFORMAVA

    XXVII

    NA SEMANA ELA SAÍA

    PRA VISITÁ AS CUMADE

    LÁ NU CENTO DA CIDADE

    PROCURÁ CUMADE LIA

    MAS O QUE MERMO ELA IA

    ERA INCONTRÁ CUM PREÁ

    PARA BUTÁ PRA QUEBRÁ

    VIVÊ O AMÔ PROIBIDO

    AGORA DISINIBIDO

    SEM TÊ COMO TERMINÁ

     XXVIII

    DUDÉ JÁ DISCONFIADO

    RESORVEU FICÁ TENTANO

    POIS MERMO DISCONFIANO

    NUM TINHA QUALQUÉ CERTEZA

    QUI SUA XUXU BELEZA

    TAVA LHI BUTANO GAIA

    JÁ AMOLAVA A NAVAIA

    PRA PEGÁ OS DOIS NO SUSTO

    DÁ UM CASTIGO BEM JUSTO

    NU URSO E NA MUIÉ PAIA

    XXIX

    PARTIU PARA O TUDO OU NADA

    E ZEFINHA CHEGOU JUNTO

    I SEM NEM PUXÁ ASSUNTO

    ISPERÔ DUDÉ DEITADA

     DEU UMAS OITO GOZADA

    QUI INDOIDECEU O MARIDO

    QUI PERDUÔ SÊ TRAÍDO

     ACEITÔ A PRÓPIA SORTE

    JÁ SI SINTINO MAIS FORTE

    SEM O ORGULHO FIRIDO

    XXX

    FOI ASSIM QUI MI CONTARO

    NOS MEUS VERSO REGISTREI

    POIS EU NUNCA ACREDITEI

    QUI CORNO NACE CUM FARO

    MUNTO MENOS CUM PREPARO

    PRA CUMPRI A SUA SINA

    MAS COMO A ISTORA INSINA

    É MIÓ TÊ PACIENÇA

    RESORVÊ SEM VIOLENÇA

    E MUDÁ SUA ROTINA

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  • Folclore 22.10.2009 2 Comments

    Sempre gostei de ouvir e contar histórias. Umas verdadeiras, outras nem tanto, então fui juntando aqui e ali e acabei fazendo uma coletânea que publiquei no meu primeiro livro cujo título é “Caçando Jaburu e outras Histórias. Aqui vai uma dessas histórias que repasso como me contaram. Se é verdade não sei, mas o cenário é bem real e pode ser visto em muitas cidades do interior do nosso país. Espero que apreciem.

    RESPOSTA ADEQUADA

    Festa de padroeira no interior é sempre o maior acontecimento do ano. Em um país com uma religiosidade tão arraigada como o Brasil, as festas da fé são verdadeiros eventos, onde o religioso e o profano andam lado a lado.

                    Esta história passou-se numa dessas festas em um lugarejo do interior do Nordeste.

                    A festa da padroeira Nossa Senhora das Boas Virtudes durava dez dias. Acontecia sempre nos meses de julho, época menos seca e coincidente com as férias escolares, o que possibilitava receber filhos da terra egressos de outras cidades onde tinham ido morar, estudar e fazer a vida. Vinha gente de todo lugar, incluindo Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife entre outras.

                    A igreja matriz ficava no fim da avenida principal, numa grande praça arborizada com um coreto no centro e um passeio dando uma volta completa, por onde as moças desfilavam de braços dados em grupos, enquanto os rapazes ficavam parados observando e flertando em busca daquela que seria a sua namorada na festa e nos bailes.

                    Diariamente aconteciam novenas, e após o culto religioso a banda de música Lira do Sertão fazia uma retreta animando o local enquanto as pessoas divertiam-se no parque de diversões e bebiam umas e outras nas diversas mesas espalhadas pelas ruas em torno da matriz.

     Nos diversos bares e restaurantes eram servidos ótimos tira-gostos da cozinha regional que incluíam sarapatel, buchada de bode, lingüiça de porco, sem falar em carne de sol com macaxeira, regada por uma excelente manteiga de garrafa.

    Não faltava também um churrasco de carne de bode e carneiro guisado com pirão. Galinha de capoeira com pirão de parida servia para levantar até defunto bêbado, coisa bem comum nos finais de noite. Diz-se que um pirão de parida ou uma cabeça de galo, são perfeitos para evitar ressaca no dia seguinte e agüentar a maratona de bailes e bebedeiras.

    Depois da novena e da retreta a quermesse incluía um leilão de produtos doados pela população para gerar renda para a igreja.

                    Mariazinha era uma moça de poucas posses, mas de beleza destacada no lugar, chamando a atenção da garotada que queria namorar. Embora, ainda não tivesse feito dezoito anos, já demonstrava ser muito esperta e sabia como poucas tirar proveito em certas situações. Tinha arrumado um guarda-roupa razoável para agradar os pretendentes durante a festa, mas, faltava-lhe um componente essencial para aparecer bem no último dia da festa na praça e no baile; um belo par de sapatos.

    José era o que se podia chamar de  pessoa do bem. Vivia lá no sítio da família, levando uma vida simples cuidando do gado e das criações. Já tinha algumas cabeças próprias para negociar e fazer um dinheiro para gastar na festa e doar um pouco para as obras da Santa Madre Igreja.

    Só ia à cidade quando tinha negócios ou nas ocasiões festivas. No último sábado da festa, levou sua mercadoria para vender na cidade na feira pública que acontecia durante todo o dia.

    Alguns quilos de carne de cabrito, dois carneiros já tratados, uns trinta quilos de queijo que tinha feito com o leite das vacas, uma carne de sol de primeira e umas garrafas de manteiga. Somava-se ainda lingüiça sertaneja e umas latas de chouriço, um doce muito apreciado feito com sangue de porco, farinha de gergelim, açúcar e castanha de caju assada.

    Vendeu tudo antes das duas da tarde e apurou uns cento e cinqüenta contos de reis. Um conto de réis correspondia a um mil cruzeiros da época em que se chamava cinqüenta centavos de quinhentos réis.

    Botou o dinheiro no bolso e seguiu feliz para o centro da cidade para comprar a roupa que iria vestir à noite na festa. Estava olhando as vitrines quando viu Mariazinha e ficou literalmente encantado, com um olhar de bobo, como se tivesse visto visagem. Ela o estava fitando com um largo sorriso nos lábios carnudos de cabocla bem criada. Virou de lado para ter certeza que era para ele que ela estava realmente olhando. Era, não havia dúvidas, a festa começara bem para Dedé como era conhecido entre os amigos.

    Por ser sempre bem intencionado, costumavam lhe pregar peças e alguns por maldade o chamavam de Dedé Besta, porque sempre era vítima das brincadeiras de mau gosto. Diziam até que uns versos atribuídos ao poeta Moisés Sesiom teriam sido dedicados a ele, dada a tamanha leseira que costumava aparentar.

     

    Andei procurando um besta,

    Um besta que fosse capaz,

    De tanto procurar um besta,

    Encontrei este rapaz,

    Que nem pra besta serve,

    Porque é besta demais.

     

    Ela foi logo puxando conversa com ele.

    Você vai para a quermesse hoje?

    Dedé respondeu: Vou, só falta comprar a roupa, e você?

    Mariazinha respondeu:

    Estou doida pra ir, mas, tem um problema, tenho vestido, mas, não tenho sapato. Talvez tenha que ficar em casa.

    Acabara de jogar o laço

    Falou Dedé:

    Por isso não, se eu lhe der o sapato, você se encontra comigo lá?

    Ela respondeu:

    Com toda certeza, à noite nos encontraremos no leilão da quermesse.

    Então vamos à sapataria, chamou Dedé.

    Ela o guiou rua abaixo na direção da melhor sapataria da cidade. O ponto era famoso na venda de sapatos para as moças da cidade, donzelas ou não, pois encontravam produtos da moda usados nas principais cidades do país. Era evidente que os preços também não eram os mais baratos.

    Ela dirigiu-se à vendedora e já foi pedindo o par de sapatos que já estava separado. Pronto Dedé é esse aqui que eu quero. Pode pagar e à noite nos encontramos conforme combinado. Agora tenho que ir.

    A vendedora apresentou a conta a Dedé que quase morreu de susto quando viu o preço. Setenta contos de réis custava o sapatinho da moça. Era um presente muito caro para quem tinha apurado menos de cento e cinqüenta e ainda tinha alguns gastos para honrar. Mas, agora estava sem jeito. Tirou os cobres do bolso, pagou e saiu pensativo com uma estranha sensação de que tinha sido enrolado. Teria que esperar até à noite para saber.

    Arranjou-se como pode para pagar as contas e comprar sua própria roupa com o pouco que lhe restou, Ficou quase sem dinheiro para gastar no leilão. Encontrou seus amigos e contou-lhes só a parte boa, que tinha arranjado uma tremenda gata para namorar à noite, uma das mais bonitas da cidade. Todos ficaram curiosos e com uma ponta de inveja. Afinal, ainda não tinham conseguido nada.

    Chegou o tão esperado momento. A ansiedade era indisfarçável e Dedé não via a hora de encontrar Mariazinha e mostrar aos amigos a sua grande conquista.

    Ao chegarem ao pátio do leilão lá estava ela, linda em seu vestido de festa e os sapatos brilhando nos pés. Estava rodeada de amigas e de braços com outro e pelo jeito carinhoso dava a entender que era namorado. Foi uma ducha de água fria para Dedé. Ela acenou levemente para ele e desviou a atenção para o leilão.

    Entre uma oferta e outra, havia um espaço para recados, música e participação do público. Num desses intervalos Mariazinha dirigiu-se ao palco, pegou o microfone e anunciou que ia fazer uma homenagem.

    Senhoras e senhores, queridos amigos, quero fazer uma homenagem especial a uma pessoa, que possibilitou a minha presença aqui hoje à noite. É para você Dedé a quadrinha que vou recitar.

     

    Sapato de setenta contos,

    Só quem tem aqui sou eu,

    De braços com quem eu gosto,

    Olhando pra quem me deu.

     

    Foi uma facada pelas costas. Todos riram à vontade, principalmente os que já sabiam do golpe que ela dera no pobre do matuto.

    O locutor anunciou que o direito de resposta para agradecer estava garantido e disponibilizou o microfone para Dedé falar.

    Extremamente contrariado com o papelão que tinha feito, considerou: barco perdido, bem carregado, pensou.

    Senhoras e senhores agradeço a oportunidade para falar e poder responder à altura da homenagem de Mariazinha, e recitou:

     

    Sapatos de setenta contos,

    Só quem tem aqui és tu,

    Custou-me o suor do rosto,

    E as pregas do seu cú.

     

    Estava vingado.

     

     

     

     

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  • Em 1996 cursando pós-graduação em Políticas Públicas na UFPE, realizado em Petrolina/PE, muito se discutia sobre economia e sistemas políticos. Eu fazia uma poesia e um amigo Dr. José Pereira da Costa, um grande poeta, rebatia. Assim tornávamos as aulas mais divertidas. Numa dessa aulas saiu essa pérola…

     

    ECONOMIA TROPICAL

     

    I

    Estou meio atrapalhado

    Com essa tal de economia

    Café, cana de açúcar

    Algodão e rodovia

    Tomei dinheiro emprestado

    Prá pagar a ferrovia

    II

    Trabalhador brasileiro

    De escravo a penitente

    Pegou carta de alforria

    Com a liberdade latente

    Carrega essa cruz nas costas

    Jamais foi independente

    III

    E o tal capitalismo?

    Prá onde é que ele vai?

    Só vejo o Pais penando

    Anda prá frente e prá trás

    Agora exporta folia

    E ninguém trabalha mais

     

     

     

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  • Às vezes o poeta se depara no dia-a-dia com situações inusitadas ou mesmo acontecimentos contemporâneos, tais como catástrofes, crendices e coisas do gênero. Depois do furacão Katrina, em uma roda de conversa alguém falou: “ puxa vida o mundo vai se acabar desse jeito e daí surgiu o mote. Vale lembrar no entanto, que nós estamos levando a natureza a dar o troco, com a nossa ignorância, não respeitando o meio ambiente e o equilíbrio de suas forças.

    ESTE MUNDO SE ACABA COM CERTEZA

    PELA ÁGUA, COM FOGO OU PELA TERRA

                                                                      I

    O vulcão vomitando a sua ira,

    Pelo chão sua lava incandescendente,

    Fogaréu com furor sem precedente,

    Transformando a floresta em grande pira

    Num incêndio que o mundo jamais vira

    Resultante da força que ele encerra

    Pouca gente sobrou depois da guerra

    Dessa força sem fim da natureza

    Este mundo se acaba com certeza

    Pela água, com fogo ou pela terra.

                         II

    Lá no mar começou um furacão

    Uma força voraz devastadora

    Batizado Josefa ou Aldenora

    Vai varrendo o que acha pelo chão

    Automóvel, trem bala ou caminhão

    Pela praia, no mar ou pela serra

    Não tem alvo difícil, ele não erra

    Soberano é mais rei que sua alteza

    Este mundo se acaba com certeza

    Pela água, com fogo ou pela terra.

                          III

    Um estrondo da terra treme o chão

     E o solo então se movimenta

    A estrutura das casas não agüenta

    Pois o ferro e o concreto são em vão

    Cai o prédio, a barragem e o pontilhão

    Chora o povo, com a dor que a luta encerra

    Os destroços desabam, tudo enterra

    Morre gente ao redor é só tristeza

    Este mundo se acaba com certeza

    Pela água, com fogo ou pela terra

     

     

     

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  • Assim acontece com quase todo mundo. Namorar, se apaixonar, espantar os” inxiridos” de plantão, conquistar a moça e casar. Depois ver que na vida tudo vale a pena se a alma não é pequena, conforme dizia Fernando Pessoa. Relembrar é muito bom.

    I

    O nosso conversadeiro

    Faz  tempo qui começou

    Tem mais de trinta janeiro

    Qui a gente se enamorou

    Num foi meu amor primeiro

    Mas foi o mais verdadeiro

    Qui meu coração amou

    II

    Naquele mês de Santana

    Na beira mar recifense

    Tu virou o meu xodó

    Eu virei seu confidente

    Nosso caminho cruzou

    Pela vida enveredou

    E se tornou permanente

    III

    Era quarta-feira, lembro

    Num bar chamado Veleiro

    Com linda noite estrelada

    E um céu de brigadeiro

    No dois pra lá, dois pra cá

    Com as perna a se isfregá

    Num balançá tesudeiro

    IV

    Ah quanta boa lembrança

    Muito tempo bom passou

    Nós viramo gente grande

    Qui namorou e casou

    Saindo da dolecência

    Pra ganhar ixperiença

    Nas brincadeira do amor

    V

    Né pra lembrá com saudade?

    Namorá agarradinho

    Com mil cheirin no cangote

    Alisando de mansinho

    Querendo pegá nos peito

    Ela impurrando sem jeito

    O braço devagazinho

     VI

    Em começo de namoro

    Né fácil pegá nos peito

    Pois mermo a moça querendo

    Num acha muito direito

    Pois pra o bem das virtude

    Tem qui tomá atitude

    Pois num conhece o sujeito

    VII

    Pra dá o primeiro beijo

    Tem qui ajeitá na buchecha

    Porque pra beijo de língua

    Tem que isperá a decha

    Pois beijo bom é robado

    Bejá com os beiço colado

    Qui assim ninguém se quexa

    VIII

    Nas travessura do amor

    Se aprende todo dia

    Pois o qui a mãe num insina

    Si aprende na fulia

    Os home aprende nas puta

    As minina na iscuta

    Ou então na putaria

    IX

    As coisa do nosso amor

    Somente nóis dois qui sabe

    Um abraço bem juntinho

    Um beijinho qui  num babe

    Beijo é bom de todo jeito

    Ou no pescoço ou no peito

    Do jeitinho que lhe cabe

     X

    E o rol dos interessado

    Tava chein de inxirido

    Pretendentes de magote

    Sem capilé nem muído

    De comunista a babão

    Cambada de arrumação

    Cabras sem qualquer sentido

     XI

    Isso era pobrema pouco

    Prum mestre do caqueado

    A coisa pra resolvê

    Era o tar do namorado

    Qui com três ano de casa

    Já tava pra mandá brasa

    E obrigá o noivado

    XII

    Meu povo acredite in neu

    A coisa é dificultosa

    Pois só cum cunversa mole

    Num se sobe as Alterosa

    Precisa ter muito jeito

    Agir de modo perfeito

    Conquistar cum verso e prosa

    XIII

    Às vezes um chocolatim

    Deixado cum displicença

    Na mesa qui ela trabaia

    Pode fazê diferença

    Sabê do que ela gosta

    É sempre a mió resposta

    Pra virá acontecença

    XIV

    Um passo de cada vez

    Todo dia um ajeitado

    Foi uma questão de tempo

    Espantá o namorado

    Qui num era um cabra ruim

    Mas era chei de pantim

    Num servia pro riscado

     XV

    Foi aí que começou

    O tempo do nosso amor

    Que ta durando até hoje

    Com respeito e com fervor

    Andando sempre pra frente

    Batalhando no batente

    Vivendo sem destemor

     XVI

    Entre namoro e noivado

    Dois anos foi ligeirim

    Pedir a moça ao vei Dão

    Não foi tão facim assim

    Pois era um vei das antiga

    Sem falseá na cantiga

    Tudo tim tim por tim tim

     XVII

    No dia qui nós casemo

    Você num chegou na hora

    O pade então ispritou-se

    E quiria ir simbora

    Nós fiquemo debatendo

    Convenci o reverendo

    A isperá a demora

     XVIII

    Fumo vivendo feliz

    Um casá bem aprumado

    Os minino foi nascendo

    Nós criando cum cuidado

    Rigulando os bacurim

    Pra evitar coisa ruim

    Minino maleducado

    XIX

    Nas coisa do nosso amor

    O ciúme era constante

    Passava qualquer bruaca

    Pegava ar num instante

    Eu olhava sem maldade

    O balançá da beldade

    Que era simples passante

    XX

    Mas tu num se conformava

    Se afobava dimais

    Achava qui todo mundo

    Ia querer seu rapaz

    Então lá vinha ciúme

    E um monte de queixume

    E eu num ficava em paz

     XXI

    Quando vinha o carnaval

    Ninguém brincava direito

    Porque no bloco do frevo

    Ninguém achava defeito

    Depois de quarenta cana

    Toda catraia é bacana

    Todo mundo é bom sujeito

    XXII

    Mas se você não bebeu

    Num entende tanto abraço

    Um bebo segura o outro

    Assim ninguém erra o passo

    Toda mulher é amiga

    As mais nova, as mais antiga

    Se brinca sem embaraço

    XXIII

    Olhando por esse lado

    Num dá pra se descuidá

    Porque se marcar bobeira

    O jacaré vem pegá

    Essa parada é difice

    Tem muito disse me disse

    É melhor deixar pra lá

     XXIV

    Nas coisa do nosso amor

    Tem almoço com cuzido

    Um pirão incrementado

    Muita zuada e muído

    Tem verdura da quitanda

    Uma rede na varanda

    Tem soneca com ruído

     XXV

    Ronco separa casais?

    Diz o povo qui separa

    Mas você segura a barra

    Porque meu ronco não para

    Agüenta sem reclamar

    Dorme com meu ronronar

    É coisa de mulher rara

     XXVI

    Cum três filho bem criado

    Ficamo como no iníço

    Dois priquito numa quenga

    Vivendo sem ribuliço

    Namorando como pode

    As vez dançando pagode

    Os dois cum corpo ruliço

    XXVII

    Nóis vivendo de regime

    Cum reumatismo nos pés

    Procurando a melhor forma

    Cum sorvete e canapés

    O qui num falta é vontade

    De ficá duas beldade

    Namorando nos motéis

    XXVIII

    As vezes diz o ditado

    A vontade dá e passa

    Mas nos tempo de hoje in dia

    Os home num se imbaraça

    Ingole uma piula azul

    O bicho aponta pro sul

    O qui vier ele traça

     XXIX

    Nas coisa de nossa vida

    Vamos falá dos amigo

    Essas pedra preciosa

    Carrego sempre comigo

    No lado esquerdo do peito

    No coração do meu jeito

    Jamais fico arrependido

     XXX

    Quiria escrever mais

    Tem tanta coisa a dizê

    Fico com água nos oios

    Já num consigo iscrever

    Pois seu amor me sorriu

    E minha vida seguiu

    Amando sempre você.

     

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  • BIA: Gostaria de poder encontrá-la todos os dias. Mesmo não sendo possível pessoalmente, mas em espírito estou sempre com você. Você merece tudo de bom e eu quis registrar neste martelo a minha certeza na sua vitória na busca de seus objetivos, tanto profissionais, quanto pessoais. Creia sempre em você e no amor. Deus lhe abençoe e proteja sempre.

    I

    Eu me lembro você bem pequenina

    Eu cantava a canção do Caetano

    Assistí seu crescer a cada ano

    Se tornar uma jovem leonina

    Perna longa, bem reta feminina

    Para mim será sempre uma princesa

    Com seu porte, seu charme e beleza

    Se destaca com fibra nordestina

    E na luta tem fé, não desanima

    Na vitória acredita com certeza

    II

    Ser feliz é o que todos nós queremos

    E você certamente assim será

    Pois merece alguém para lhe amar

    Um amor tipo unidos venceremos

    Com doçura, com paz e nada menos

    Que uma vida feliz e prazerosa

    Um moleque e uma filha bem dengosa

    E o vovô vai ficar muito contente

    A vovó vai sorrir intensamente

    E a família ficará mais numerosa

    III

    Sei que o tempo parece demorado

    Mas tem hora pra tudo acontecer

    Siga em frente lutando pra vencer

    Que o esforço será recompensado

    O que espera irá ser alcançado

    Com certeza, é só ter paciência

    Que o esforço somado à eficiência

    Levará brevemente a vitória

    Reescrevendo então a sua história

    De uma luta pautada na decência

     

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