• Folclore 04.04.2012 4 Comments

    O Cara de Pau

    Austriclinio Maria da Silva nasceu na Paraíba, supostamente em Ingá do Bacamarte. A mãe viera para o Rio de Janeiro com ele de braço e mais outros seis com idades variando de oito anos para menos, na esperança de encontrar o marido que havia partido dois anos antes para tentar a vida em um lugar melhor, já que viviam na maior miséria no seco sertão do semiárido paraibano.

    A mãe o batizara o caçula com este nome porque lhe disseram que era de bom alvitre e traria muita sorte ao menino. Sim, precisaria mesmo de sorte, pois os dois menores Austriclinio e Avonino nasceram depois da viagem do pai que confiara a família ao seu cumpadre Zé Felinto, amigo de muitas décadas e homem da sua inteira confiança. O cumpadre prometeu que não tiraria os olhos da comadre. Podia seguir tranquilo. Pelo visto não tirou mesmo, já que a família aumentou e não passaram fome.

    Dizia inclusive que o caçula, nosso herói, era a cara do cumpadre. Era um amigo e tanto.

    Ao chegar ao Rio de Janeiro em um pau de arara depois de 15 dias de sofrida viagem, tomaram de cara o maior susto com aquele movimento e aquela cidade imensa e cheia de gente. O cumpadre dera uns cobres para a viagem que mal deu para pagar as passagens e comer alguma bugiganga pela estrada, sobrando muito pouco para os dias que viriam. Trouxeram galinha torrada, farinha e
    paçoca em latas de querosene, rapadura e umas duas quartinhas que iam sendo abastecidas com água por onde passavam.

    Assim Josefina Aparecida dos Santos (A Zefa de Zenô) conduziu a sua prole na grande aventura. Chorara muito ao se despedir da comadre e do cumpadre, mas como se diz por lá, rapadura é doce, mas não é mole. E a comadre já andava meio cismada achando os dois pirralhos bem parecidos com os dela.

    Pegaram um trem da Central do Brasil e foram procurar o pai e marido no endereço que recebera um ano e meio antes na última carta mandada por Zenô. Depois de muita dificuldade encontraram o tal lugar, mas nem sinal do sujeito. Primeiro veio a decepção, depois começou o desespero. Mas, como era mulher de muita fé e fibra, deixou o orgulho de lado e pediu ajuda em uma casa que por coincidência era de um casal do Ceará. Foram acolhidos e Zefa se ofereceu para trabalhar na casa que por sorte estava precisando de uma empregada.

    Assim foi levando a vida como viúva de marido vivo, ou morto sabe lá, e foi criando os filhos sem jamais pensar em voltar, pois não ia passar essa vergonha. Foi à luta e venceu. Jamais voltou a casar ou ter filhos. Conseguiu construir um barraco na favela para onde se mudara depois que arrumou um emprego em Copacabana.

    Austriclinio crescera muito namorador e pouco trabalhador. Desde pequeno acompanhava a mãe quando ela ia para o trabalho e cresceu praticamente nas areias das praias cariocas. Foi assim que chegou à idade adulta com um segundo grau concluído e uma larga experiência na arte de paquerar.

    Mas a vida segue seu rumo e um dia foi bafejado pela sorte quando conheceu uma garota que era uma diva de bonita e rica de origem. Mesmo a família da moça sendo contra o namoro, acabou tendo que aceitar o gajo depois que descobriram que a filha havia embarrigado. Não teve jeito, tiveram que casar para evitar um escândalo maior.

    Casou mas não sossegou. A sogra jurou que não lhe daria trégua e que ele jamais veria um centavo da herança da família. E ficou de campana doida para pegar o elemento numa falcatrua que fizesse a filha despachá-lo para o lugar de onde veio. Nunca aceitou o fato de um filho de migrante nordestino, um “Paraíba” como apelidam todo nordestino no Rio, e diga-se de passagem, no caso um legítimo de origem, pobre, pudesse ter conseguido um romance com sua filha da alta casta carioca e ainda casar. Era demais. Ela de certa forma se fazia de esquecida quanto às próprias origens, já que fora dançarina de teatro nas noites cariocas e atraíra as atenções de um deputado mineiro que ficara rico explorando o jogo do bicho.

    Clinô, como Austriclinio passou a se apresentar, depois de uns tempos de casado e com a mulher em final de gravidez, voltou à velha vida de paquera e passou a pular a cerca de vez em quando. Um dia se mandou para Niterói no meio da tarde com a secretária para uma tarde de amor e sexo em um motel que frequentavam num bairro discreto da cidade. Seguiam pela avenida quando o sinal fechou e Clinô avista quem? A sogra que vinha atravessando na faixa. Ela olhou para ele, botou aquele olhar de vingança e disse pra si mesma: te peguei seu salafrário. Por sorte na época não existia celular.

    Clinô não se fez de rogado, com um aceno de mão cumprimentou a sogra, sorriu e deu apartida no Opalão SS que dirigia.
    De imediato retornou para o Rio e chegou às pressas no escritório de onde ligoupara a mulher:

    Celina tenho uma proposta para lhe fazer; estou com a tarde vaga e me deu uma vontade danada de ir a Niterói com você para  revermos aquele por do sol em Icaraí. Vamos nessa? A mulher achou meio estranho o convite por não ser usual, mas aceitou.
    Em pouco tempo chegou ao escritório no centro da cidade e foram para Niterói.
    Ao chegar ao mesmo cruzamento que havia parado com a secretária, quando o sinal abriu acenou para uma pessoa e arrancou. Ao dobrarem na esquina ela perguntou: Acenou para quem? Ele respondeu: para sua mãe. Seguiram para o programa só retornando à noite para casa.

    A primeira pessoa que encontraram foi a sogra que não poupou e foi logo dizendo para a filha: Celina tenho lhe falado sempre, coração de mãe não se engana. O safado do seu marido estava em Niterói com a vagabunda da secretária em plena tarde.

    Ao que Celina respondeu: Era eu mamãe. A velha retrucou: não estou cega nem louca, pois conheço muito bem vocês dois e não era você.

    Ao que Celina respondeu: ele lhe cumprimentou não foi? Foi respondeu a mãe. Então, foi no cruzamento do sinal na avenida. Era eu. A senhora precisa não perseguir tanto o pobre do Clinô que é um grande homem, é meu marido e me ama.

    A velha engoliu em seco e avisou: desta vez você escapou seu sem-vergonha, mas ainda te pego.

    FIM

     

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  • Viva a literatura de cordel. O reconhecimento vem chegando em altas doses, o que estimula o aparecimento de novos autores e novos leitores. A novela Cordel Encantado muito contribuiu para a divulgação dessa nossa arte tão pura. Empresas já patrocinam lançamentos e eventos. Tive a oportunidade de visitar a FENEARTE em Recife e o tema era o cordel. Aqui na CIENTEC na UFRN tinha mais de um estande com poetas e pessoas comuns recitando versos próprios ou de grandes mestres do cordel como Patativa do Assaré e Zé da Luz de saudosa memória.

    I

    Vivas aos nossos cordéis

    Que vêm do seio do povo

    Retratam no seu viés

    O fato antigo e o novo

    Desde grandes menetréis

    A matutos sem anéis

    De coração eu os louvo

    II

    O cordel conta a história

    Do cangaço e Lampião

    Não esquece na memória

    De Gonzaga do Baião

    Da coisa mais vexatória

    Da briga e da moratória

    De Dom Pedro e de Dom João

    III

    Fala de coisas picantes

    De corno de todo tipo

    Urso do pé flutuante

    Traído que sai no grito

    Desgosto com a amante

    Do ciúme avassalante

    Da lei de Chico de Brito

    IV

    Tem receita de remédio

    Para dor de cotovelo

    Para a tristeza e pro tédio

    Pra desenrolar novelo

    Para combater assédio

    Seja forte ou seja médio

    De arrepiar o cabelo

    V

    Ele ensina a namorar

    Escapar de armadilhas

    Como o patrão enrolar

    Desenrolar a partilha

    Com Frei Damião rezar

    Achar moça pra casar

    Versejar com redondilha

    Natal/RN – 30/10/2011

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  • Folclore 14.06.2011 No Comments

    Luíz Gonzaga, o rei do baião, sempre inspirou muitas pessoas e muitas histórias. Esta hostória segundo me foi contada ,aconteceu no agreste de Pernambuco. Não sei se foi verdade ou mentira, afinal não me cabe investigar isso. A mim cabe a obrigação de contar, somando-se a tantas e tantas que circulam por aí, enriquecendo o folclore brasileiro.

    O baião é um dos ritmos nordestinos mais apreciados. Faz parte da música regional, compondo com o xote e o xaxado, os principais ritmos representantes da musicalidade do forró.

    O incontestável rei do baião é e sempre será o pernambucano de Exu Luis Gonzaga. Ele imortalizou os ritmos do forró através da gravação de centenas de canções num incontável número de discos ao longo de décadas. Mesmo hoje após a sua morte ainda continua venerado e fazendo sucesso e escola no meio musical.

    Ao longo de gerações o velho Lua, como era chamado carinhosamente, vem conquistando fãs apaixonados em todo o Brasil.

    Um desses fãs ardorosos era um caboclo morador do agreste chamado de João de Noca. O apelido, diziam, era por causa da facilidade que sua mãe tinha em fazer amizades e receber as pessoas. Todos gostavam de ir à casa de Noca. Fizeram até uma música para o carnaval segundo contavam.

    João era um apaixonado pelas músicas do rei do baião. Mal assinava o nome, mas, sabia de cor e salteado todas as letras de Gonzagão. Asa Branca, ave Maria, para ele era o hino do sertão. Pense numa música boa que dava emoção.

    Só sabe doutor, quem mora ou já morou no sertão de Pernambuco, durante uma seca braba. Era só ouvir tocar e o homem começava a cantar e logo caía no choro de emoção.

    João tinha todos os Lp’s (abreviatura de Long Playings), do Rei. LP era o nome dado pelas gravadoras aos discos de doze polegadas de diâmetro feitos em vinil. Foram colecionados com muito sacrifício, ao longo de muitos anos, já que João não era um homem de posses. Mantinha-os todos, impecavelmente guardados em suas capas originais.

    Ouvia os discos de vinil tocando em várias rotações. Tinha desde os antigos de 78 rpm com uma música de cada lado, aos de 33 e 1/3 com várias canções de cada lado, mais modernos.

    Ligava diariamente uma velha vitrola que ganhara do patrão. Era da marca ABC, fabricada ali mesmo no Recife no bairro da Mustardinha, bem próxima à fábrica de discos  Rozemblit  onde muitos artistas famosos gravaram álbuns que fizeram a história da música no Brasil.

    Todo cuidado era pouco para não quebrar a agulha magnética ou arranhar os preciosos discos. Vivia feliz com seus sonhos e sua música.

    Já sua mulher, preferia ver o cão a ouvir Luiz Gonzaga. No começo até gostava, mas tomou o maior abuso por causa do fanatismo e egoísmo do marido. Chamava-se Zefa de Zé do Timbó, não se sabe se era porque o pai nascera em Tacaimbó ou porque costumava pescar nos açudes das fazendas na calada da noite utilizando timbó para pegar os peixes. Era uma pesca predatória já que não respeitava nem tamanho nem idade. Se brincasse, arrastava até os alevinos.

    Para piorar a história, ela era doidinha por Waldick Soriano, o maior cantor brega do Brasil e não tinha chance de ouvi-lo na radiola de João, por absoluta falta de oportunidade. Já tinha avisado ao marido que qualquer dia daria fim àqueles discos.

    Viviam na zona rural numa casa de fazenda cedida pelo patrão. Casa típica do semi-árido nordestino tinha uma boa área construída, mesmo não tendo acabamento de chapisco ou reboco, tinha uns poucos pontos de luz. Atrás da casa um grande quintal, onde existia um chiqueiro com algumas cabeças de criação, distribuídas entre caprinos e ovinos, guinéis e galinhas de capoeira. Nos terrenos em volta era uma caatinga só, onde predominava uma vegetação típica composta por mato rasteiro e pés de algaroba e juremas, cheias de espinhos pontiagudos.

    Dentre as músicas gravadas por Luis Gonzaga, a preferida de João de Noca era uma canção chamada O Rabo do Jumento de um compositor potiguar chamado Elino Julião.  Talvez pela lida diária com animais e sendo o jumento um excelente companheiro de trabalho, compadecia-se com a letra da canção que narrava a infelicidade de um muar que teve o seu rabo cortado por um fazendeiro raivoso chamado Nascimento. O imprevidente ser movente invadira o seu terreno e lhe comera algumas espigas de milho e por isso fora castigado.

    Mas, diante da obstinação e do fanatismo de João de Noca em passar todas as horas em que estava em casa com a radiola ligada tocando baião de Luis Lua, sem dar oportunidade para outro cantor, Zefa chegou ao limite da tolerância.

    Sempre que tinha chance, cantarolava “eu não sou cachorro não, pra viver tão humilhada..” música de maior sucesso do seu querido Waldick. Era também uma forma de dar vazão à sua própria insatisfação.

    Um belo dia ela amanheceu virada para a lua. João tinha ido para a feira na cidade e só voltaria no fim da tarde, já que nos sábados de feira, costumava tomar uns gorós jogando bozó com os amigos.

    Zefa resolveu cumprir a promessa tantas vezes adiada. Pegou todos os discos, dos Lp’s aos compactos simples e quebrou um a um e foi jogando a pedaceira no terreno atrás da casa. As capas rasgou todas e fez uma grande fogueira enquanto entre uma risada nervosa e outra cantava “eu não sou cachorro não, …”.

    João voltou no fim da tarde e chegou morrendo de vontade de escutar seus baiões, xotes e xaxados. Ao entrar em casa ficou em choque. Nem um disco na casa e nem sinal da mulher. Entendeu logo o que tinha acontecido. Zefa de Zé do Timbó tinha cumprido a sentença tantas vezes anunciada. Fora embora e ainda o deixara sem os seus amados discos. Certamente sentiria mais falta desses do que dela, pois só lhe davam alegrias, enquanto ela alternava bons e maus momentos. Nos últimos tempos, mais momentos ruins, por causa das constantes brigas devido às diferenças de preferências musicais, entre outras coisas.

    Já tomado pela emoção, ajudado pelas três garrafas de aguardente que tomara com os amigos na feira, ouviu algumas notas bem conhecidas que começavam e paravam em breves intervalos. Eram frases soltas, mas a melodia era a do Rabo do Jumento.

    Eu não quero pagamento Nasci…” e repetia, “eu não quero pagamen…”.

    Guiou-se pelo som chegando a um dos pés de jurema. Era um pedaço de disco enganchado nos galhos da árvore.

    Quando o vento soprava, balançava o galho e o espinho encostado no pedaço de vinil reproduzia trechos da canção.

     

     

     

     

     

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  • Uma colega de trabalho deu uma grande demonstração do quanto gosta da empresa. Agregou no e-mail pessoal o superlativo do nome da organização. De Barros para barríssima. Achei bem curioso e interessante nascendo assim os versos que publico a seguir.

    ELICIANA BARRÍSSIMA

     I

     É UMA MOÇA BACANÍSSIMA

    CHEIA DE BALACO BACO

    SE APRESENTA LOURÍSSIMA

    CONFIANTE NO SEU TACO

    NO DIA-A-DIA ESPERTÍSSIMA

    SABE GARANTIR SEU NACO

     II

    QUEM CONHECE ESTA MENINA

    DIZ QUE ELA É FELICÍSSIMA

    TRABALHA E NÃO DESANIMA

    NESTA VIDA AGITADÍSSIMA

    ELA É MESMO GENTE FINA

    AMIGA NÃO, AMICÍSSIMA

     III

    OS OLHOS CLAROS PARECEM

    DUAS ESMERALDAS, VERDÍSSIMAS

    OS AMIGOS NÃO ESQUECEM

    DESTA MÃE DEDICADÍSSIMA

    QUE TODO MUNDO CONHECE

    ELICIANA BARRÍSSIMA

    19.05 2011 – Natal – RN

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  • Volto a escrever no meu blog depois de uma pausa para concluir o meu novo livro. Foi batizado como “Conversa de Matuto”. Está saindo do forno e breve, muito breve estará disponível em papel nas livrarias e como e-book através do site. É um livro de cordel que reúne parte do que eu já publiquei em folhetos e uma parte ainda não publicada.

    Tem mais algumas novidades. Vou lançar uma página com receitas dos diversos rincões que visito por esse Brasil afora na coluna “Culinária em Verso e Prosa”.

    Vem muito mais por aí. Aguardem.

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  • Por volta dos idos de 80, constumávamos nos reunir em família às sextas-feiras e convidar alguns amigos para um joguinho de canastra. Varávamos a noite entre goles de whisky, tira-gosto e boas conversas. Um dos frequentadores assíduos da residência de um primo era um profissional de comunicações muito conhecido no Recife. Chamava-se Fernando Castelão. Ficara famoso por apresentar um dos primeiros programas de TV ao vivo no início da década de 60, o Você faz o Show. Salvo engano era na Tv Jornal do Commercio. Muito bem, Castelão era um grande contador de histórias e tinha uma verdadeira coleção de causos e casos, quase sempre temperados com muito humor e muitas vezes com versos.

    Contou certa vez, que um grupo de cidadãos já na terceira para a quarta idade, costumava se encontrar pelas manhãs na praça de Casa Forte, um bairro nobre do Recife. Reuniam-se aposentados de diversas profissões no amanhecer da capital pernambucana para caminhar e prosear, geramente falando do que já tinham feito. Ocorre que, neste mesmo horário, também costumavam frequentar a praça uma grande quantidade de secretárias do lar que tinham como primeira tarefa do dia, levar os cachorrinhos das madames para passear e descarregar no local enquanto as patroas dormiam. Eram um deleite para os velhinhos. À medida que a idade avança e a vista encurta, as mulheres ficam cada vez mais bonitas. E elas provocavam os vovôs.

    Mas, tinha uma que era especial. Morena com seus 22 anos, alta, altiva, pernas bem torneadas, um charme só. Além disso, tinha uma bunda perfeita, parecia feita à mão por um escultor talentoso. Foi demais para um juiz que também era poeta. Fez uma homenagem justíssima aos atributos da moça. Nunca soube seu nome para dar os créditos ao autor.

    ELEGIE À BUNDA

    Quando ela passa, todo mundo espia

    Não para a cara que não é formosa,

    Mas, para a bunda que é maravilhosa.

    Em bunda nunca vi tanta magia,

    Quebra, requebra, rodopia,

    Numa sensação vertiginosa.

    E deve ser assim uma bunda cor de rosa,

    Da cor do céu quando desponta o dia.

    E ela que sabe que sua bunda é boa,

    Segue faceira e rebolando à toa.

    E eu fico aqui, extasiado e mudo,

    Não pela cara que não vale nada,

    Mas pela bunda, que é o que vale tudo.

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  • Em temporada de Copa do Mundo, vamos relembrar um fato que supostamente aconteceu, mas, se não foi totalmente verdadeiro, eu diria que a ficção ficou só por conta dos personagens, pois o jogo foi real.

    CAMPEONATO ROUBADO

     

     

    Existia um gringo egresso da Europa oriental que militou por muitos anos no futebol do nordeste do Brasil. Conhecia como poucos as malandragens do futebol e sabia tudo o que ocorria nos bastidores e porões do famoso esporte bretão.

    Certa vez correu uma história que, segundo diziam, fora contada por ele e se referia a uma final de campeonato ocorrida em um estado da região onde um dos times fora roubado descaradamente.

    O fato era o seguinte:

    Pela primeira vez o campeonato seria decidido fora do eixo das duas maiores cidades do Estado, a capital no litoral e uma cidade do agreste de grande importância econômica, cultural e financeira, onde ficavam os três melhores times do Estado. A ida da decisão para uma cidade pequena no interior era inédita e dava pela primeira vez a esperança da conquista de um título por um time pequeno e sem tradição.

    A população toda se mobilizou para buscar a conquista do tão sonhado campeonato. Entretanto, como ocorre até os dias de hoje, havia uma grande preocupação com o juiz que apitaria o jogo, pois os árbitros eram escolhidos na Federação que ficava na capital, bem perto dos interesses dos grandes clubes. Havia um sentimento na visão dos torcedores de que, o juiz geralmente favorece o clube grande de mais tradição.

    Para minimizar esse risco, solicitaram à Federação a contratação de um juiz de outro Estado , preferencialmente do Rio de Janeiro que era na época, a Meca do futebol brasileiro. O presidente da federação concordou para acalmar os ânimos. O juiz viria do Rio de Janeiro para Recife e ele em pessoa o escoltaria da capital pernambucana até o local do jogo. Falavam também as más línguas que o presidente do time adversário viajara no mesmo vôo. De Recife o juiz foi levado de carro pelo presidente da Federação para a cidade onde ocorreu o evento.

    A cidade estava em festa. Contavam com a vantagem da torcida fanática, o time jogando em casa, e o campo quase sem grama, com os buracos bem conhecidos pelo pessoal local e um perigo para os jogadores mais sofisticados do time grande acostumados com grama macia e bem tratada. Ali se praticava literalmente o famoso futebol de poeira como eram chamados os jogos no estádio municipal, dadas às condições do campo.

    Chegou o dia do jogo, tão esperado por todos. Uma vitória por qualquer placar daria o campeonato ao time da cidade anfitriã. Qualquer outro resultado consagraria o time visitante, tantas vezes campeão.

    No entanto pairava uma pergunta no ar: E se o juiz roubasse? Ele não sairia inteiro de lá. Não tinha como escapar. Logo ao chegar fora avisado, se roubar morre, pois vamos estar de olho, declarou o chefe da torcida organizada local.

    Nunca um título estivera tão perto de ser conquistado por um time fora do eixo dos grandes. Parece que dessa vez David venceria Golias mais uma vez, reeditando a famosa passagem bíblica.

    O time da casa tinha poucos destaques entre os seus esforçados atletas. Entretanto, dois merecem ser lembrados:

    O primeiro era o ponta esquerda, que era um raio. Um metro e cinqüenta e seis centímetros de pura velocidade, embora seu talento para jogar não fosse tão grande quanto a facilidade com  que abraçava umas garrafas da branquinha, conseguidas em um engenho próximo. Mas, fazia lá os seus gols, graças à rapidez que chegava à área adversária. Não era brilhante, mas, servia. Certa vez o técnico de um time do Recife o viu jogando e disse: Se tivesse um centímetro de inteligência seria o melhor jogador do mundo. Nessa estória ele é o Zé do Mé.

    O outro era o beque central, que tinha como principal habilidade dar de bico na bola, costume aprendido na usina de açúcar de uma cidade próxima onde deu seus primeiros chutes. Seu lema era: “bola pro mato que o jogo é de campeonato”. Avisado sobre a força do ataque do time visitante, prometera solene: “Não passarão”, lembrando a famosa frase de Dolores Ibárruri, conhecida como La Passionária, figura lendária da guerra civil espanhola. Devido ao número da chuteira que calçava, 45, ficou conhecido como Zé Pezão.

    O time visitante não cantou de galo, ficou como uma raposa na espreita, esperto esperando a vez de dar as cartas e ganhar mais um campeonato. Tinha o melhor elenco, a melhor campanha, ganhara dois dos três turnos e levava a vantagem do empate. Já entrava em campo com a mão na taça. Seus jogadores vinham de vários estados, sendo alguns de Pernambuco, outros do Ceará, além de Bahia e São Paulo. Pessoal experiente, ganhando bons salários e gordos bichos nas vitórias e às vezes até nos empates.

    Time profissional, usava uniforme padrão de primeira linha vindo de São Paulo, com destaque para o patrocínio de empresa estampado no peito como acontece até os dias de hoje. Era o que tinha de melhor no Estado.

     Dentre os vários destaques tinha um meia esquerda que era a estrela do time. Crioulo cheio de ginga e um ego do tamanho do Maracanã. Será chamado aqui de Zé Quelé em homenagem a um dito popular conhecido no interior que diz que quando a pessoa é besta “só quer ser as pregas de Quelé”. Além de boçal, ele tinha a convicção de que o juiz estava comprado e o jogo seria tranqüilo, mesmo parecendo uma coisa difícil de acontecer dada as circunstâncias da partida. Mas,… em futebol tudo é possível.

    Começa o jogo após o tradicional minuto de silêncio que sempre aparece nesses eventos. Sem esquecer que todos cantaram o hino nacional, perfilados como soldados, mão no peito como verdadeiros patriotas. Ou pelo menos fingiram que cantaram, pois a maioria dos jogadores nem conhecia as primeiras estrofes do nosso querido hino.

    No primeiro ataque do time visitante Zé Pezão divide a bola com Zé Quelé que faz corpo mole e cai na maior encenação. Todo mundo viu que a jogada foi viril, mas na bola. Só um cego veria diferente. Mas o juiz marcou a falta em cima da linha, frontal ao gol. A torcida reclamou porque o zagueirão nem tocou no outro jogador. Os primeiros gritos de ladrão ecoaram no estádio, somados a diversas homenagens à progenitora do árbitro, alem de ameaças diretas. Cartão amarelo para Pezão que reclamou, embora com justa razão. O azeite para fritar o juiz começara a ser aquecido.

    Enquanto isso, Quelé ajeitou a bola displicente, afastou-se meio metro e esperou o a autorização. Partiu para a bola crente que ia fazer o gol. Chutou um metro acima da trave para alívio da torcida local. O jogo continuou, bola pra lá, bola pra cá e novo ataque do campeão. O lateral direito entrou  impedido, recebeu a bola, deslocou o goleiro e cruzou para Quelé na marca do pênalti que também estava totalmente na banheira e só com a trave à sua frente. A derrota parecia decretada, pois so estavam ele, a bola e a trave. O que aconteceu em seguida ninguém poderia prever. O atacante isolou a bola com violência e ela caprichosamente bateu no travessão e foi para fora. O impedimento fora escandaloso, o bandeirinha tinha marcado e o juiz ignorou. Começava a ficar claro que o Sr. Árbitro havia sido comprado. Não dava para pensar diferente. O jogo continuou e terminou o primeiro tempo. O juiz saiu do campo para o vestiário aparentemente protegido pela polícia.

    Começa o segundo tempo e mal a bola rola, Quelé, sempre ele, avança em direção à área adversária e é travado na hora de finalizar. Cai escandalosamente e a falta é apitada. Os jogadores cercam o juiz, pois a jogada fora nitidamente na bola, corpo a corpo normal, mas não adiantou. Mais dois cartões amarelos para o time da casa, serviram para acalmar os ânimos e aumentar a ira da torcida.

    Quelé abriu distância, correu e bateu na bola com violência em direção ao ângulo superior direito. Mas o goleiro num esforço espetacular voou para desviá-la para escanteio. O 0 X 0 continuava mantido. O time da casa animou-se e partiu para o ataque. Bola lançada nas costas do zagueiro e Zé do Mé, o veloz ponta esquerda aparece por trás da zaga pega a bola e parte célere em direção ao gol. Executa o goleiro e a bola vai para o fundo das redes. O grito de gol ecoa no pequeno estádio seguido de um ohhh de frustração. O gol fora anulado. Impedimento, dado pelo bandeirinha e confirmado pelo juiz. Jogada difícil porque Zé do Mé era um raio e partira da mesma linha dos zagueiros. Sem jeito. O gol foi anulado.

     Assim que o tiro de meta foi batido diante da população indignada, a bola foi lançada para Quelé que estava novamente totalmente impedido. A jogada foi interrompida e o meia, estrela do time visitante veio com tudo para cima do juiz que sem pestanejar puxou o cartão vermelho e o expulsou. A confusão estava formada, mas não adiantou. O campeão estava com dez e  sem o seu melhor jogador. Zé Quelé fora mandado mais cedo para o chuveiro. A tensão aumentou no campo, mas como era de se esperar alegrou a torcida local que voltou a ter esperanças na conquista do campeonato. Agora começaram a acreditar que o juiz era honesto, não tinha sido comprado. Afinal, expulsar o melhor jogador do time visitante, do todo poderoso campeão não era pra qualquer um. E ainda dera mais dois cartões amarelos para os que reclamaram.

    O jogo ficou mais tenso, com jogadas ríspidas lá e cá, mas nada de perigo para os goleiros. A bola não saía do meio do campo e da intermediária devido ao grande número de faltas de parte a parte.

    Já no finalzinho do tempo regulamentar, uma bola foi cruzada sobre a área do time da casa e um jogador do time visitante chocou-se com Zé Pezão e caiu. Sem pestanejar o juiz marcou o penalty, para tristeza geral da torcida da casa. O atacante ajeitou a bola com carinho e afastou-se olhando no vazio para não encarar o goleiro nem dar dica em que canto iria chutar. O apito soou autorizando a cobrança e fez-se um silêncio mortal no estádio. O atacante correu e bateu firme na bola. Gol e 1X0 para o time visitante. O sonho virara pesadelo, pois mais uns poucos minutos e o jogo acabou. Restavam as lágrimas da frustração para a população da cidade. O time visitante, tantas vezes campeão, vencera mais uma vez. Enquanto festejavam, o juiz retirou-se discretamente sem chamar a atenção. No geral fizera um bom jogo aos olhos da torcida.

    Ao voltar,  encontrou-se com o dirigente do time campeão que pagara por seus préstimos que foi logo perguntando: Você enlouqueceu? Expulsou nosso melhor jogador, quase pôs tudo a perder! Ao que o juiz respondeu: Qual era o seu objetivo? Não era o campeonato? Você o tem. Marquei duas faltas inexistentes e deixei passar um impedimento escandaloso e seu jogador desperdiçou as três oportunidades. Se eu marcasse o pênalti com ele em campo, quem iria bater? O cartola respondeu: ele é claro, pois é o batedor oficial da equipe. O juiz retrucou: e ele com certeza iria perder, pois não era o dia dele. E eu como ficaria? Como iria arranjar outro penal? O seu negócio era seu time ganhar o campeonato. O meu era ganhar meu dinheiro e sair inteiro, sem agressões da torcida local. Meta atingida.

    A corrupção vencera mais uma vez.

     

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  • Um por do sol às margens do Lago de Sobradinho na Bahia, para variar degustando uma cervejinha bem gelada num calor de trinta e poucos graus. De repente uma visão digna de um quadro de Di Cavalcanti . Uma belíssima silhueta saindo da água de vestido a sacudir os cabelos negros sobre aqueles ombros morenos. Era jovem e linda naquela rusticidade sertaneja. Por um instante cheguei a pensar que vinha em nossa direção. Ledo engano, saiu da água e sumiu. Ficaram os versos.

    I

    Flor sertaneja

    De olhar tão doce.

    Quisera que fosses

    Tão linda pra mim.

    II

    Flor sertaneja

    Teu jeito brejeiro.

    Teu riso, teu cheiro

    Eu sonho pra mim.

    III

    Flor sertaneja

    Por mais que eu procure

    Aqui e alhures

    Eu não chego ao fim.

    IV

    Flor sertaneja

    Acabou meu sonho.

    Viverei tristonho.

    Não vens para mim.

     

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  • Folclore 29.10.2009 1 Comment

    Aqui está mais uma das histórias que publiquei no livro “Caçando Jaburu e outras histórias”.                                                                                      

    No ano da graça de 1968, passeando pela feira de Campina Grande na Paraíba dei de cara com um daqueles contadores de histórias tão comuns no Nordeste do Brasil. Normalmente estão vendendo literatura de cordel, uma das manifestações mais puras da poesia popular brasileira.

    O moço nesse caso estava ensinando a jogar no bicho e vendendo uma combinação de palpites prontos com simpatias para os crédulos arriscarem a sorte na busca de acertar uma milhar premiada na cabeça, ou seja, no primeiro prêmio.

    O jogo do bicho é uma contravenção tolerada em todos os estados brasileiros, mas, regulamentada na Paraíba no tempo em que o Dr. João Agripino Maia era governador do Estado.

    Consiste numa loteria com um grupo de vinte e cinco animais em ordem alfabética, cada um representado por um número. Começa com a águia que é a número 01 e termina com a vaca que é a de número 25. A premiação menor é quando se acerta no grupo que paga na maioria das cidades brasileiras R$ 15,00 por cada real apostado.

    A dezena paga R$ 50,00 reais por cada real um jogado, a centena R$ 400,00 e a maior é quando se acerta a milhar do primeiro prêmio que paga em média R$ 4.000,00 por cada unidade de moeda jogada, variando o valor de cidade para cidade.

    Os jogos são divididos em cinco prêmios compostos de uma milhar cada um. Ou seja, pode-se tirar a sorte em qualquer milhar desde que se jogue do 1º ao 5º. Cada animal do grupo é reconhecido por quatro dezenas em ordem crescente mais dois dígitos variando de 01 a 99 compondo a milhar.

    Exemplo: A águia é reconhecida pelas dezenas de terminação 01, 02, 03 e 04, associada a qualquer dezena entre 01 e 99 compondo a milhar. Assim, 0101 é águia, 9901 é águia, 5004 é águia. Somam 400 milhares para cada bicho em cada prêmio, totalizando 2000 milhares nos cinco prêmios e 50000 no total dos 25 bichos. Isso em cada corrida, pois à época eram sorteados três prêmios durante o dia, pela manhã, à tarde e à noite.

    Conta a história que o jogo do bicho foi inventado pelo Barão de Drummond em 1892 no Rio de Janeiro. O Barão era dono do Jardim Zoológico e recebia subvenção da Coroa  para manter tudo funcionando. Com o advento da República a verba foi cortada e o Zoológico passou a ter dificuldades para sobreviver. Foi quando surgiu a idéia de lançar a loteria animal.

    O sonho é um grande aliado do jogador do bicho. Permite as mais diversas interpretações e como às vezes dá certo, segue no imaginário popular como uma grande ferramenta de auxílio para ganhar no jogo.

    O propagandista, como eram chamados aqueles homens que divulgavam produtos na feira, contou a seguinte história:

     Numa cidade do interior da Paraíba morava uma senhora que, de tão viciada no jogo, há um bom tempo não sonhava. Consultara uma cartomante que lhe dissera que na próxima vez que sonhasse, receberia uma indicação de palpite para o jogo do bicho que era líquido e certo. Era só ter um pouco de paciência. Após alguns dias  veio o tão esperado sonho com a seguinte indicação; no dia seguinte a primeira pessoa que lhe “desse as horas”, expressão usada no interior para o cumprimento, daria o palpite do jogo do bicho. Mas, tinha uma recomendação importante; ela não poderia dirigir a palavra a ninguém, senão o palpite não viria. Teria que ter paciência e aguardar, para não quebrar o encanto.

    Ela morava numa rua típica das cidades pequenas do Nordeste do Brasil. Casas geminadas, parede e meia como são conhecidas, calçada única, uma porta principal dividida em duas metades e uma só janela com parapeito largo para apreciar o movimento externo nas horas de folga. A casa era uma das últimas da rua, ficando bem próxima a uma vacaria já quase na área rural da cidade. Em frente à casa tinha um cacimbão que servia de fonte  para quase todo mundo, já que água encanada era uma esperança para o futuro naquele sertão esquecido pelos homens, já que Deus não esquece ninguém. O poço ficava bem embaixo de um grande pé de tamarindo que fazia uma sombra muito larga devido à enorme copa da árvore. Era um verdadeiro oásis naquela fornalha sertaneja do semi-árido paraibano.

    A senhora acordou cedo, no raiar do dia e postou-se na janela esperando o cumprimento salvador que traria o palpite para o jogo vencedor e a sorte grande. Logo os vaqueiros, todos conhecidos, começaram a passar para ordenhar as vacas e para a lida diária e nada. Nem um bom dia, parecia que nunca tinham se visto. As horas foram passando, os filhos acordaram, as pessoas da casa iniciaram suas atividades rotineiras, mas ninguém lhe dirigiu uma só palavra. Parecia que estava invisível, pois nem vizinhos, nem parentes nem amigos lhe dirigiram qualquer cumprimento.

    Decidiu apostar no sonho, permanecendo calada esperando o mensageiro da sorte. Quando o cambista apareceu no início da rua já perto das 11 horas a angústia tomou conta dela, pois estava vendo sua esperança ir embora. Não poderia esperar pelo jogo da tarde, pois a recomendação no sonho era expressa, só vale para o jogo do meio dia.

    Mas, como diz o ditado, “a quem Deus promete não falta”, parou na sua porta um caminhão Chevrolet 46 reduzido pé de bode como era conhecido o modelo da GMC, e o motorista desceu e disse:

    - Bom dia dona Maria. Ela disse para si mesma, é esse, só pode ser.

    A senhora dá licença eu tirar água da sua cacimba para botar aqui no radiador da minha onça? Carro velho no Nordeste é chamado de onça.

    Ela pensou rápido, é ele, não tem erro. No jogo do bicho não tem onça, mas tem os primos, Tigre e Leão, e anotou sem demora para não esquecer.

    Pois não seu Zé, fique à vontade. Ao que o motorista respondeu: vou aproveitar a sua sombra para acertar a Borboleta dessa boca de Jacaré que vem comendo muita gasolina. Ela anotou mais dois no caderninho. Passado algum tempo o motorista e mecânico, dirigiu-se a uma pessoa que vinha em cima da carroceria e que era seu chapeado, como são conhecidos os ajudantes de caminhão e falou:

    Elefante desce daí. Vamos tomar uma para dar fome pro almoço? Vamos patrão, boa idéia. O motorista respondeu:

    Não sabe aquela Gata veia que eu matei o Carneiro dela com o carro? Sei patrão. Pois vá lá na barraca dela pegue uma garrafa de aguardente Touro com tira gosto de Peru pra gente sarrar o Galo nessa cabeça de Porco. O sonho começara a virar um pesadelo depois de tantos palpites.

     Quando Elefante saiu o motorista virou-se para ela e disse: Tá vendo aí D. Maria, esse cabra diz que é Águia, é metido a sabido, mas, não passa de um Burro. Tem 15 filhos, família de Coelho sem condições de sustentar com o dinheiro que ganha. A mulher coitada é magra como uma Cobra, as canelas finas, num tem que ver as canelas de um Avestruz. Nesse ponto da conversa Elefante já retornava com as encomendas e ainda ouviu os últimos comentários. Falando de mim patrão? Não só estava dizendo a D. Maria que você só quer viver da beleza feito Pavão.

    Terminaram de arrumar o caminhão, beber e comer e despediram-se de D. Maria que a essa altura já estava com o caderno cheio. De repente ouviu-se um estampido seguido de um chiado,  e…, acabara de estourar um pneu. Desceram e o motorista constatou que estava sem as ferramentas adequadas para a troca do pneu. Virou-se para Elefante e falou: Elefante, vá lá na casa de compadre Camelo e peça o Macaco dele emprestado, mas, não entre na casa não, pois os Cachorros de lá são brabos e do tamanho de um Cavalo. Ao que Elefante respondeu: Mas patrão, compadre Camelo é muito Urso, não vai querer emprestar o Macaco não.

    Deixe de conversa e vá logo Viado, tá feito Vaca ?

    E assim cumpriu-se a profecia.

    NOTA: Os valores de premiação da história forma pesquisados por ocasião da feitura do livro. Hoje tem cidades que pagam para a milhar 5000×1, a centena 600×1, a dezena 60×1 e o grupo 18 reais por 1 no grupo. Existem ainda uma grande gama de combinações que geram os mais diversos valores de premiação.

    Obs: CONTATO COM O AUTOR: antunios@hotmail.com

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  • Por mais estranho que possa parecer, os triângulos amorosos são bem comuns no interior. Conheci até quartetos nas minhas andanças pelo interior do Brasil. A história de Zefa e Chico retrata o abandono que, muitas vezes, as mulheres sofrem por parte de maridos ignorantes e com uma cultura de que mulher é só para parir e servir.

    I

    SEU DOTÔ VOU LHE CONTÁ

    O QUI AQUI SE ASSUCEDEU

     POIS DE FATO ACONTECEU

    CUM CHICO PÉ DE PREÁ

    QUI RESORVEU SI INGRAÇAR

    DE ZEFINHA DE DUDÉ

    MODE AS ANCA DA MUIÉ

    QUI REBOLA QUANO PASSA

    ANDANO CHEIA DE GRAÇA

    E MUITO PEREQUETÉ.

    II

    ERA UMA NOITE ISTRELADA

    FESTEJANO A PADROEIRA

    MUITA CACHAÇA BREJEIRA

    E QUEIJO CUM MARMELADA

    TINHA CERVEJA GELADA

    TIRA GOSTO DE GALINHA

    CUM FARINHA BREJEIRINHA

    NUM PIRÃO MUITO ARRETADO

    GOSTOSO E APIMENTADO

    PREPARADO POR ZEFINHA

    III

    VEI UM PADE LÁ DA FRANÇA

    VEI PULIÇA, DELEGADO

    MAIS UM CABO E TRÊS SORDADO

    PRA GARANTIR SIGURANÇA

    DE MUIÉ ,VÉI E CRIANÇA

    E DE MATUTO BRIGÃO

    COMO ZÉ DA CONCEIÇÃO

    QUI FICAVA IMBRIAGADO

    FALANO TODO INROLADO

    E DIZENO PALAVRÃO

    IV

    TODO MUNDO TAVA ARMADO

    UM CUSTUME DO SERTÃO

    CUM REVORVE E MOSQUETÃO

    E PUNHÁ MUITO AFIADO

    FACA E FACÃO AMOLADO

    SE UM CABRA ASSIM BEM VISTIDO

    LEVA UMA GAIA ISCONDIDO

    CUM CERTEZA SI APERREIA

    QUER LOGO METER A PEIA

    FICÁ BRABO E ATRIVIDO

     V

    DUDÉ FI DE BIU CANINHA

    É CABRA MUITO DISPOSTO

    POR ZEFA TEM MUITO GOSTO

    CONHECEU ELA NOVINHA

    CUM SUA PRIMA RITINHA

    NUM FORRÓ DE PÉ DE SERRA

    O MIÓ DAQUELA TERRA

    NUMA NOITE DE SÃO JOÃO

    QUANDO SOLTAVA ROJÃO

    QUI PARECIA UMA GUERRA

    VI

    CUMEÇARO A NAMORÁ

    E FORO LOGO CASANO

    CUM ZEFA EMBARRIGANO

    QUAJI NO PÉ DO ALTÁ

    DUDÉ BUTOU PRA QUEBRÁ

    PRA ZEFA NUM DEU MOLEZA

    ERA SÓ NA SAFADEZA

    NO QUINTÁ E NA ALCOVA

    POIS TESÃO DE MUIÉ NOVA

    NUM ISFRIA COM CERTEZA

    VII

    QUANO ZEFA SI CASÔ

    TINHA FEITO DIZESSETE

    DUDÉ TINHA VINTE E SETE

    E O CASÁ SE CUMPRETÔ

    O VIGARO ABENÇOOU

    NOVA FAMIA FORMADA

    CUM ZEFA JÁ IMPRENHADA

    NUM BUCHO DE MAIS DE MÊS

    DUDÉ NUM PERDEU A VEZ

    TINHA INXIDO A NAMORADA

    VIII

    OS ANO FORO PASSANO

    A VIDA SEGUINO IN FRENTE

    ZEFA VIVENO CONTENTE

    SUAS CRIANÇA CRIANO

    UM BRUGUELO A CADA ANO

    JÁ TINHA SEIS NA NINHADA

    E DUDÉ NA CACHORRADA

    VIVIA RAPARIGANO

    E MUNTA CANA TOMANO

    CUMA PUTA AGALEGADA

     IX

    NUM DEMORÔ MUNTO NÃO

    CUMEÇARO OS MIXIRICO

    VIZIN FAZENO FUXICO

    DAQUELA SITUAÇÃO

    SE ZEFA SABIA OU NÃO

    NUM CUMENTAVA NADINHA

    SOFRIA MERMO SOZINHA

    SEM INFORMÁ PRAS CRIANÇA

    QUI O PAI VIVIA NA DANÇA

    NO CABARÉ DE ROSINHA

    X

    DUDÉ PUXÔ E ARRASTÔ

    TODAS MANIA DO PAI

    POIS TODA NOITE ELE VAI

    PRO BUTECO DE NESTÔ

    ZEFA FICA NO TRICÔ

    ELE SE FAZ DE BACANA

    VAI INCHER O CÚ DE CANA

    IGUALZIM A BIU CANINHA

    VAI DIRRUBANO A BRANQUINHA

    E FAZENO JUS A FAMA

    XI

    ADISPOIS DE INCHER A CARA

    SEGUE DIRETO PRA ZONA

    LÁ INCONTRA AQUELAS DONA

    QUI VEVE IN RIBA DA VARA

    CUM DUENÇA QUI NUM SARA

    DE CHANHA INTÉ GONORRÉA

    INCARA QUALQUER BORRÉA

    SI SINTINO UM GARANHÃO

    MAS NUM PASSA DUM CAGÃO

    QUI VEVE CUM DIARRÉA

    XII

    A COISA FICÔ DIFICE

    POIS ZEFA ACABÔ SABENO

    SIGUIU IN FRENTE SOFRENO

    PRO MODE O DISSI MI DISSI

    POIS INTÉ CUMADE EUNICI

    DISDIBUIOU A ISTORA

    GORA JÁ TAVA NA HORA

    DI CUNVERSÁ CUM DUDÉ

    SABÊ O QUE QUELE QUÉ

    SI ACERTÁ SEM DEMORA

     XIII

    ZEFINHA TAVA PENSANO

    COMO FALÁ CUM DUDÉ

    POIS CUMA ERA MUIÉ

    TINHA QUI SIGUI LUTANO

    NO BATENTE LABUTANO

    INTÉ ARRUMÁ AS PROVA

    PRA SEM POESIA NEM PROSA

    INQUADRÁ O ELEMENTO

    DISPACHÁ SEM DOCUMENTO

    E CUMEÇÁ VIDA NOVA

    XIV

    MAS ANTES DE ARRESORVÊ

    A PARADA CUM DUDÉ

    ZEFINHA SIGUIA A PÉ

    TENTANO A DÔ ISQUECÊ

    SORRINO PRA ISPARECÊ

    QUANO VIU CHICO PREÁ

    QUI VINHA BEM DIVAGÁ

    CUM SEU SORRISO BANGUELA

    DURIM OLHANO PRA ELA

    CUMA QUEM QUÉ SI ABRAÇÁ

    XV

    FOI AÍ QUI ACONTECEU

    OS ZOI DOS DOIS SE INCONTROU

    ZEFINHA SE ARRUPIOU

    I CHICO FICOU TREMENO

    CUM AS PESTANA BATENO

    I CUMEÇÔ A GAGUEJÁ

    SEM AS PALAVRA INCONTRÁ

    MERMO ASSIM DISSI BOM DIA

    CUMA VAI FULÔ DO DIA

    NOIS IXISTE PRA SI AMÁ.

    XVI

    ZEFINHA NEM DEU OUVIDO

    CONTINUOU SEU PASSEIO

    POIS O MUNDO TAVA CHEIO

    DE CABORÉ INXIRIDO

    E DE CABRA JÁ VIVIDO

    DOUTÔ EM PAQUERAÇÃO

    CUM MUNTA CUNVERSAÇÃO

    PROMETE O MUNDO E O FUNDO

    AMOR ETERNO E PROFUNDO

    E MUNTA BADALAÇÃO

     XVII

    O CHICO ERA BOM SUJEITO

    ERA BOM TRABAIADÔ

    NUM ISTUDÔ PRA DOUTÔ

    MAS APRENDEU DO SEU JEITO

    A LÊ I ISCREVÊ DIREITO

    MAIS AS QUATRO OPERAÇÃO

    MERMO CONTA CUM FRAÇÃO

    JÁ RESORVIA NA HORA

    CUM PROVA DE NOVES FORA

    SEM ERRÁ NA TRANSAÇÃO

    XVIII

    O CHICO PÉ DE PREÁ

     SEMPRE GOSTOU DE ZEFINHA

    DERNA QUI ERA NOVINHA

    ELE PENSOU NAMORÁ

    PORÉM AGIU DIVAGÁ

    E DUDÉ CHEGÔ PRIMERO

    NAMORÔ CASÔ LIGERO

    NUN DEU CHANCE PRU PREÁ

    QUI TEVE QUI AGUENTÁ

    I FICÁ RAPAZ SORTERO

    XIX

    O TEMPO É GRANDE ALIADO

    VIRTUDE É TÊ PACIENÇA

    DEPOIS CHEGA A RECOMPENSA

    COMO BEM DIZ O DITADO

    O CHICO ISPERÔ SENTADO

    SEM PERDÊ A ISPERANÇA

    QUI TINHA DESDE CRIANÇA

    DE SI AJUNTÁ CUM ZEFINHA

    NUMA CAMA BEM QUENTINHA

    PRA FAZÊ UMA LAMBANÇA

    XX

    ENFIM O DIA CHEGÔ

    NA FESTA DA PADROERA

    NA PRAÇA PERTO DA FEIRA

    CHICO A MORENA AVISTÔ

    POIS ZEFINHA SEU AMÔ

    TAVA PARADA SOZINHA

    ISPIANDO PRA BANDINHA

    QUI TOCAVA NA RETRETA

    UM DOBRADO BEM PORRETA

    NO CORETO DA PRACINHA

     XXI

    O CORAÇÃO BATEU FORTE

     I SEM VÊ DUDÉ PU PERTO

    ARRESORVEU SÊ ESPERTO

    E ARRISCÁ SUA SORTE

    MERMO CUM RISCO DE MORTE

    O TESÃO ERA MAIÓ

    E SEM PENSÁ NO PIÓ

    CHEGÔ JUNTO DE ZEFINHA

    ABRAÇÔ A MORENINHA

    SEM MUNTO POROCOTÓ

    XXII

    DE INIÇO ELA ASSUSTÔSSE

    QUIS SI SORTÁ DO ABRAÇO

    CHICO CUNS NELVOS DE AÇO

    FALÔ CUMA FALA DOCE

    A MINHA ISPERA ACABÔSSE

    VAMO SI AMÁ AGORA

    POIS INTÉ PASSÔ DA HORA

    DI NÓIS DOIS FAZÊ AMÔ

    PURQUE DESPOIS QUI NÓIS FÔ

    VOCÊ NUM MI MANDA IMBORA

    XXIII

    ZEFINHA NUM RISISTIU

    FOI PRU BARRACO DI CHICO

    DEPOIS DE TANTO FUXICO

     SUA VERGONHA SUMIU

    RESOVEU DÁ O XIBIU

    PARA QUEM GOSTAVA DELA

    O VELHO CHICO BANGUELA

    QUI TINHA O PÉ DE PREÁ

    TRANSÔ SEM SI INCABULÁ

    CUM CORAGE SEM CAUTELA

    XXIV

    DEPOIS DA NOITE DE AMÔ

    ZEFINHA VOLTÔ PRA CASA

    PUR POUCO NUM SI ATRASA

    POIS LOGO DUDÉ CHEGÔ

    PARECE QUI ADVINHÔ

    JÁ FOI CHAMANDO ZEFINHA

    VEM CÁ MINHA GOSTOSINHA

    PRA NOSSO ATRASO TIRÁ

    TÔ PRONTO PRA NÓIS TRANSÁ

    DÁ UMA BEM RAPIDINHA

     XXV

    ZEFINHA DISSI NUM DÁ

    POIS TÔ CUM DÔ DE CABEÇA

    PUR HOJE VOCÊ MI ISQUEÇA

    QUI EU NUM VÔ NAMORÁ

    TOME UM BAIN PRA MILHORÁ

    DESSE CHERO DE TITICA

    POIS HOJE ESSA PIRIQUITA

    NUM DÁ PRA VOCÊ USÁ

    VÁ DURMI PRA DISCANSÁ

    DESSA CACHAÇA MARDITA

    XXVI

    DIPOIS DE PASSADO UNS DIA

    DUDÉ FICOU MAIS CASERO

    POIS JÁ TAVA MEIO CABRERO

    CUM O QUI ACONTECIA

    POIS ZEFINHA REPELIA

    TODA VEZ QUI ELE TENTAVA

    DIZIA QUI ASSIM NUMA DAVA

    QUI NUM TAVA BEM DISPOSTA

    I DAVA O NÃO POR RESPOSTA

    DUDÉ NUM SI CONFORMAVA

    XXVII

    NA SEMANA ELA SAÍA

    PRA VISITÁ AS CUMADE

    LÁ NU CENTO DA CIDADE

    PROCURÁ CUMADE LIA

    MAS O QUE MERMO ELA IA

    ERA INCONTRÁ CUM PREÁ

    PARA BUTÁ PRA QUEBRÁ

    VIVÊ O AMÔ PROIBIDO

    AGORA DISINIBIDO

    SEM TÊ COMO TERMINÁ

     XXVIII

    DUDÉ JÁ DISCONFIADO

    RESORVEU FICÁ TENTANO

    POIS MERMO DISCONFIANO

    NUM TINHA QUALQUÉ CERTEZA

    QUI SUA XUXU BELEZA

    TAVA LHI BUTANO GAIA

    JÁ AMOLAVA A NAVAIA

    PRA PEGÁ OS DOIS NO SUSTO

    DÁ UM CASTIGO BEM JUSTO

    NU URSO E NA MUIÉ PAIA

    XXIX

    PARTIU PARA O TUDO OU NADA

    E ZEFINHA CHEGOU JUNTO

    I SEM NEM PUXÁ ASSUNTO

    ISPERÔ DUDÉ DEITADA

     DEU UMAS OITO GOZADA

    QUI INDOIDECEU O MARIDO

    QUI PERDUÔ SÊ TRAÍDO

     ACEITÔ A PRÓPIA SORTE

    JÁ SI SINTINO MAIS FORTE

    SEM O ORGULHO FIRIDO

    XXX

    FOI ASSIM QUI MI CONTARO

    NOS MEUS VERSO REGISTREI

    POIS EU NUNCA ACREDITEI

    QUI CORNO NACE CUM FARO

    MUNTO MENOS CUM PREPARO

    PRA CUMPRI A SUA SINA

    MAS COMO A ISTORA INSINA

    É MIÓ TÊ PACIENÇA

    RESORVÊ SEM VIOLENÇA

    E MUDÁ SUA ROTINA

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