• A convite de meu amigo Matias Verzutti fiz uma estrofe em setilha para participar da Coletânea Poética – SOU DA TERRA NORDESTINA II, organizada por Gélson Pessoa. Espero que o editor tenha gostado e eu faça parte dessa obra.

    Vamos à poesia:

    SOU DA TERRA NORDESTINA

    PARAIBANO DA GEMA

    DO ZABUMBA À CONCERTINA

    TUDO TOCA NO MEU TEMA

    O MUNDO AO POETA ENSINA

    QUE NOSSA VIDA COM RIMA

    SE TORNA BEM MAIS AMENA.

     

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    NATAL/RN, 09 de julho de 2016

    Marcos Antunios de Carvalho Dias (Mestre Marcolino)

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  • O poeta vem meio devagar, pois a cada dia surgem novas e impressionantes expressões, palavras além, é claro, novos verbos. Com tanta coisa urgente para se fazer para desentortar o país nossa ilustre presidenta vai com o nosso dinheiro à Nova Iorque falar sobre a estocagem de vento. Nada de preconceito, mas algumas letras de músicas de sucesso são verdadeiras pérolas. Mas há espaço para todos na cultura popular. Não tem como não ter, afinal tudo é o resultado do ensino proporcionado pela “Pátria educadora”.

    I

    Educar para formar cidadãos

    É tarefa difícil e portentosa

    Requerendo sempre  muita ação

    É missão nobre e gloriosa

    Pois, para formar uma nação

    Só com educação laboriosa

    II

    A cultura é perene e permanente

    É o retrato fiel de cada povo

    Sem educação, a país todo sente

    Pois pouco se produz de novo

    Não se pode desprezar a gente

    Por não saber se é filé ou ovo

     

    Beijinho no ombro e bom feriado para todos.

    Recife, 10/10/2015

     

     

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  • DE VOLTA À LUTA

    Depois de dias atribulados estou de volta à ativa. Mais pensativo, mais cuidadoso, mas com a cabeça boa. São os percalços da vida e devem servir de exemplo para se crescer e aprender. Na verdade levo uma vida bem regrada, mas estresse ajuda a tornar as coisas ruins.

    Venho acompanhando os eventos culturais do RN sem no entanto participar mais ativamente. Vou me engajar mais e divulgar também aqui no site. Meu amigo Matias Verzutti sempre me manda as novidades, como o concurso abaixo:

    Ainda dá tempo para se inscrever no 1 Concurso de Cordel de Natal com o Tema: Os encantos               de Natal.

    Inscrições até 31.08.2015 no site casadocordel.bolgspot.com.br.

    Prêmio de R$ 500,00 para estudantes do ensino fundamental;

    Prêmio de R$ 750,00 para estudantes do ensino médio;

    Prêmio de R$ 1.000,00 para o público em geral

    Dúvidas: 84 2040 0654 / 99954 6865

     

    Vamos rimar pessoal

    Cantar as coisas da vida

    Os encantos de Natal

    Nossa cidade querida

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  • Folclore 10.03.2014 No Comments

    O carnaval em geral é sem dúvida uma grande manifestação cultural. O carnaval de Recife é fantástico com seus blocos tradicionais, maracatus, caboclinhos, caboclos de lanças, etc. Este ano o Galo da Madrugada, bloco que abre o carnaval de Recife no sábado de Zé Pereira homenageou um grande brasileiro: Ariano Suassuna. Paraibano de Taperoá, recifense por adoção e rubro negro por paixão. Nos parecemos em algumas coisas, pois sou paraibano de João Pessoa, recifense de coração e rubro negro também quando o time é o Sport Clube do Recife. Ariano é um grande escritor com obras imortalizadas como o Alto da Compadecida e o romance a Pedra do Reino. As comparações param por aí, porque eu faço meus versos e conto as minhas histórias, mas sem a verve criativa do grande mestre Ariano. Nos últimos 11 anos adotei Natal como minha cidade e fui adotado por ela. Vamos tocando em frente que o carnaval passou e o ano começou.

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  • Folclore 18.02.2013 No Comments

    José era um daqueles brasileiros que, como tantos, seguem firme acreditando até no impossível. Seu grande sonho sempre foi servir na polícia militar paulista. Tentou algumas vezes, mas sempre fora reprovado no exame psicotécnico. Tinha alguma coisa nele que não batia e podia torná-lo perigoso, talvez, não se sabe, para o exercício da função. A verdade é que ele não desistia. Como não fora admitido na PM, comprou farda e passou a exercer a função ilegalmente. Atendia ocorrências, fazia BO, casava e batizava. Até que um dia uma patrulha descobriu que ele era um falso soldado e o prendeu. Foi processado, condenado a pena alternativa pois já tinha ficado conhecido no meio e na comunidade e todos pediram por ele. Mas, foi avisado. Falsidadade ideológica, jamais. Já não era réu primário e a reincidência seria punida com os rigores da lei. Mas, não teve jeito. Voltou a ser falso polícia e acabou sendo preso novamente. Eram tempos duros de ditadura e o capitão responsável pelo inquérito resolveu lhe dar um susto. Entrou encapuzado na sala, deixou tudo à meia luz e falou solene com a pistola encostada à sua cabeça:

    Zé você é um caso perdido e foi condenado à morte. Todo condenado antes de morrer tem direito a um último pedido. Faça o seu:

    José respondeu de pronto: Me enterre de farda.

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  • Folclore 15.05.2012 No Comments

     

    De uma forma geral fomos criados dentro de um ambiente tão competitivo, que se não levarmos vantagem no que fazemos no nosso dia a dia somos considerados moles, ou perdedores. E ninguém quer ser um perdedor. Devido a uma propaganda de cigarros feita pelo jogador Gérson da seleção brasileira há mais de trinta anos, a coisa assumiu proporções de lei. Lei popular é verdade, mas amplamente difundida por gerações. Certo? Certo para a história, errado para a lei.

    Sim, porque existem pessoas que fazem de tudo para levar vantagem sem se preocupar nem um pouco com as outras pessoas e os seus direitos. Aí é uma tremenda falta de educação e cidadania.

    Mas, vamos à nossa história:

    Hoje em dia é obrigado por lei que se reservem vagas especiais para os idosos, sejam nos estacionamentos, nas filas de caixas de loterias, supermercados, bancos etc. Não é incomum mulheres jovens se aproveitarem da situação e entrarem na fila que seria para os idosos, gestantes e pessoas com deficiência. Já vi pessoas idosas questionarem e a mulher responder na cara de pau que estava grávida. O que não se pode comprovar em grande parte dos casos. E entende-se nesses casos, gravidez avançada, dificuldade de locomoção, crianças de braço etc. Mas com homem foi a primeira vez que ouvi falar.

    As filas estavam enormes naquele início de mês onde dezenas de pessoas vão para a lotérica com oito, dez ou  mais títulos para pagar. Dispensável dizer que o tempo de espera estava insuportavelmente grande. É aí que aparece nosso personagem:

    Sujeito bem apessoado, ar jovial aparentando no máximo uns quarenta anos, de repente entra na fila dos idosos que era a menor por uma rara coincidência, porque na prática raramente isto ocorre. Ao se posicionar, logo começaram os comentários de revolta dos demais clientes que viam com clareza que o homem não tinha qualquer deficiência aparente que lhe desse direito de frequentar aquela fila. Ao chegar à caixa foi questionado pela funcionária da lotérica:

    Senhor peço que respeite a lei, pois esta fila é para idosos e deficientes e o senhor não parece atender tais requisitos.

    Ao que ele respondeu:

    Moça é verdade, não sou idoso, sou deficiente.

    Ao que ela retrucou: vi o senhor andando normalmente e não parecia ter qualquer dificuldade de locomoção. Qual é a sua deficiência?

    Ele respondeu calmamente: Perdi um ovo.

    Só restou à caixa atender em meio à comoção geral.

    Natal/RN, 14 de maio de 2012

     

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  • Folclore 06.05.2012 4 Comments

    O HOMEM QUE COPO LAVA

    Poderia passar totalmente despercebido não fosse o cuidado com que tratava a todos. Com elas, até por serem mais delicadas e frágeis, fazia questão de banhá-las com todo cuidado num prazer quase lúdico. Sabia que repetiria aqueles gestos muitas vezes, embora sonhasse diariamente com o dia em que poderia desfrutá-las em vez de servi-las.

    Com eles o caso era diferente. Embora que, por dever de ofício devesse deixá-los impecáveis, tratava-os com uma quase indiferença, limitando-se ao ato protocolar de entregá-los perfeitos e não receber reclamações. Sim, porque tremia só de pensar que pudesse perder sua importante posição.

    Na sociedade de castas em que vivia estava no penúltimo degrau da escala. Nascera pobre, sem muitas oportunidades de estudar o que acabara afetando duramente sua posição social. Apesar de sua origem pra lá de humilde, aprendera desde muito cedo que cada dia é uma conquista que deve ser valorizada. Afinal, tinha boa saúde, e trazia consigo os reflexos da educação doméstica exigente que recebera onde não se fazia concessão à má qualidade. Por isso era esmerado e detalhista.

    Em dias de grandes eventos, seu trabalho aumentava muito, porque parecia que eles e elas se multiplicavam numa velocidade alucinante. Mas, sabia, que galgar uma melhor posição na vida era uma questão de tempo e paciência. Mais alguns meses em um curso que estava fazendo e sairia da função de lavador de copos e taças no restaurante e viraria um cocktail man passando a criar drinques exclusivos servidos de forma impecável.

    Natal/RN, 05 de maio de 2012

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  • Folclore 02.05.2012 5 Comments

    O HOMEM QUE FALAVA NORDESTINÊS

    Chamava-se José da Silva como tantos outros brasileiros e também tinha apelido. Era conhecido como Zé de Neném. Maria José, a esposa, era chamada assim desde pequena.

    Zé de Neném costumava tomar umas e outras e aprontar numas farras da pesada que iam até o outro dia. Certa feita eu estava num boteco e ouvi o Zé comentando com um amigo de bar;

    Sabe cumpadi, eu tava mermo precisando tomar uns goró. Foi bom lhe encontrar por aqui. Preciso de alguém pra contar umas resenha.

    Fale então homi, estou ligado.

    Pois é, saí de casa com a mulesta dos cachorro. O safado do Teleco é um infeliz das costa ôca. Foi comentar com a empregada lá de casa que tinha me visto solto na buraqueira.  Disse que me viu no muído antes de ontem e Neném acabou sabendo. O pior é que dei-lhe umas mãozadas e ele acabou me caguetando pra polícia. Só não fui preso porque ele não conseguiu provar nada. Num fiz certo?

    Né isso homi ; respondeu o amigo.

    Dizem que Nenén passou mal e teve até que tomar uma garapa pra acalmar. É lógico que tive que dá um migué nela. Enquanto ela engomava a minha roupa, ouvi duas horas de zuada e chororou. Mas a história não ficou bem resolvida não. Ela arrudeia, arrudeia mas acaba chegando onde quer. Ela demora a dá fé das coisas, mas quando descobre traficança arroxa o nó.

    O abestailado do Teleco tinha que falar nada. Aquela mania dele de mangar dos outros foi longe demais. A coisa ficou preta lá em casa. Sempre quando eu chego faço uma merenda antes de dormir que ela prepara bem reforçada, de arroz com a mistura bem temperada no molho.

    Ontem cheguei em casa e falei: Neném, cadê meu cumê?

    Ela botou pra decê: Vá comer na casa de sua rapariga e morra de caganeira. Aquela magrela de cambitos de siriema! Encha o bucho por lá. E num se isqueça de cheirar a suvaqueira dela.

    Aí foi que peguei ar de verdade. Saí de lá aloprado e aperriado ao mesmo tempo. O que vou fazer sem Neném? Sem ela num vou arrumar nem pra agoar as plantas. E ainda vou ficar sem a ajuda do meu cunhado que é pra lá de estribado, mas gosta muito da irmã e dessa vez vai ficar intrigado comigo.

    Só lembro de uma vez que Neném se arretou por causa de outra história como essa e quando cheguei em casa ela tinha rebolado minhas coisas tudo no mato. Me deixou reiado, sem nada pra vestir. Disse que eu era um caba de pêia, chei de malassombro.

    Soxtô, também não é assim. É verdade que dou meus pinotes, mas o resto é pantim que o povo inventa.

    Bom cumpadre tá bom de conversa, mas tá na hora de pegar o beco. Sei que ela tá com a gota serena, mas vou pedir perdão, afinal quando chego junto dela arreio os quatro pneus.

    Natal, 01 de maio de 2012.

    Escrito por: Marcos A. C. Dias (Mestre Marcolino)

     

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  • Folclore 11.04.2012 No Comments

                Salgado Silva era o seu nome. Saíra de uma cidade do interior do Rio Grande do Norte para servir ao exército em Natal. Ao chegar no terminal rodoviário perguntou aonde poderia se alistar para servir nas forças armadas. Responderam que pegasse o ônibus para Parnamirim que lá era o lugar. Pretendia na verdade servir ao exército, mas, por uma dessas coisas do destino foi parar na base aérea. Era uma época difícil, pois o mundo estava em guerra. Salgado jamais vira um avião em toda a sua vida. Quando chegou à base, descobriu que a vida dele estava ali no meio daqueles pássaros de prata. De prata só por força de expressão, pois os aviões eram de guerra e tinham aquela pintura de camuflagem.

                Na segunda grande guerra, Natal talvez tenha sido a mais importante base aliada das Américas, pela sua localização estratégica. Os Estados Unidos montaram a base em Parnamirim na área metropolitana da capital, por ser o ponto mais próximo de Dakar na África onde os aliados lutavam contra as tropas do Eixo formado pela Alemanha, Itália e Japão.

    Foi nessa conjuntura que nosso personagem entrou para as forças armadas. As tropas brasileiras trabalhavam em conjunto com as americanas. Do sítio para o teatro de operações. Fazia de tudo no quartel. Atirar aprendeu de primeira. Também com uns mosquetões daqueles, só se fosse zarolho ou mole dos braços. E bala tinha tanta que não dava pra gastar. Gostava de tudo. Nem parecia guerra. A farda era muito bem cuidada em que pese ser exigência da caserna, Salgado ou soldado Silva como era chamado tinha um zelo especial pelo equipamento. As botas brilhavam que causavam inveja a brasileiros e gringos. Começou a ganhar um dinheirinho por fora só lustrando as botinas dos galegos. Ajudava a aumentar a alegria podendo afogar as mágoas e tudo mais tomando umas e outras nos cabarés da cidade.

    Dois episódios marcaram a carreira militar do soldado Silva durante a guerra. A primeira foi quando conheceu outro militar brasileiro, que trabalhava na mecânica dos B-25 e B-26. Estava observando o trabalho de manutenção quando foi interrogado por ele: Já entrou em um avião Silva? Não senhor, respondeu de pronto prestando continência. Venha conhecer. Eu sou responsável pelas manobras dentro do hangar. Descobri que os gringos não são tão bons assim. Eles só sabem andar com o avião pra frente. Toda hora temos que empurrar avião, puxar com trator, só porque os miseráveis não sabem dar rier. Dar rier? O que é isso moço? Dar rier é dar marcha ré, não sabia? Vem do francês. Meu nome é Júnior Filho e vou mostrar pra esses galegos como se bota um avião na garagem. Sou cabra do Seridó, cresci caçando mocó, em água dei muito nó e não vim pra base aérea pra me fazer de bocó. E como tu vai fazer tenente Júnior? Salgado Silva já estava todo empolgado e aumentou logo a patente do colega. Espere que você vai ver. Só tem uma coisa que atrapalha um pouco. O que é perguntou Silva curioso. O bicho não tem retrovisor. Você vai ter quer me ajudar avisando quando chegar perto da parede. Pode deixar aviso na hora.

    Subiu na carlinga, ligou os motores e ficou acelerando até as máquinas estarem no ponto. Quando começou a acelerar, soltou os freios da aeronave e pasmem. O avião andou para trás direitinho, indo parar no final do hangar. Pioneiro como Santos Dumont, o soldado de primeira classe Júnior Filho, tornara-se o primeiro homem do mundo a dar ré em um avião utilizando os próprios motores. De longe um oficial americano observou o que estava acontecendo e assistiu a tudo imóvel sem acreditar no que via. Enquanto isso, Júnior Filho fez uns ajustes nos propulsores e deu o serviço por encerrado. Achara tudo muito simples, afinal todos os carros da base faziam a mesma coisa. Quem não acreditou no que viu, foi o tenente-aviador Gerard East cujo apelido era GE, por causa de sua frieza nas missões e batalhas no ar. Correu para contar aos superiores o feito do brasileiro. Sofreu uma repreensão e foi ameaçado de ser punido por falar tamanha mentira. Devia ser o efeito da guerra.

    Salgado Silva só teve o direito de contar uma vez. Foi chamado de mentiroso e quando procurou Júnior para confirmar recebeu um não em troca. Era segredo industrial. Seria uma poupança para os tempos de paz na aviação civil.

    O outro fato foi provocado por causa de suas iniciais. Quis abreviar seu nome. Passou a se apresentar como SS. Todos na base passaram a lhe chamar assim. Mas, era uma época de guerra e a espionagem andava à solta. Tanto era verdade que, segundo contam, uns anos depois descobriram uma estação de rádio num convento de padres na Serra do Lima em Patú que passava informações para os submarinos alemães que atuavam na costa brasileira. Inclusive, esse era um dos motivos da patrulha permanente feita pelos hidroaviões da força aérea americana, que decolavam da Rampa na foz do Rio Potengi.

    A inteligência aliada já estava de olho nas histórias de SS. Um belo dia apresentou-se a um oficial estrangeiro e foi imediatamente detido. Mesmo que não fosse espião, certamente era admirador de Hitler. Ora quem andaria se chamando de SS nuns tempos daqueles? Precisou de ajuda dos superiores para ser solto. Quando lhe explicaram o que era SS voltou a ser apenas o soldado Silva.

    Depois da guerra continuou engajado e foi tocando a vida. Os anos foram passando e um belo dia quando a força começou um programa de modernização, encontrou o prontuário de Salgado Silva com 25 anos de serviço e nenhuma promoção. Jamais reclamara e passara a vida toda na caserna. Ali era o seu lar. Casara, constituíra família e nada de promoção. Jamais perdera as esperanças. Tinha pouco estudo, mas sabia ler e tinha aprendido muitas coisas na vida militar. Não era mal-agradecido. O melhor estava por vir.

    Ao descobrirem a situação de Salgado foi feito um memorando de promoção para corrigir a grande distorção. Afinal de contas antiguidade é posto e Silva já devia ser pelo menos sargento. Foi promovido em uma cerimônia simples, mas, emocionante. Foi para casa sentindo-se o homem mais feliz do mundo. Foi recebido pela mulher com um grande abraço e uma pergunta.

    Marido, você já é cabo? Ele respondeu sorridente: E eu brinco?

     

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  • Folclore 04.04.2012 4 Comments

    O Cara de Pau

    Austriclinio Maria da Silva nasceu na Paraíba, supostamente em Ingá do Bacamarte. A mãe viera para o Rio de Janeiro com ele de braço e mais outros seis com idades variando de oito anos para menos, na esperança de encontrar o marido que havia partido dois anos antes para tentar a vida em um lugar melhor, já que viviam na maior miséria no seco sertão do semiárido paraibano.

    A mãe o batizara o caçula com este nome porque lhe disseram que era de bom alvitre e traria muita sorte ao menino. Sim, precisaria mesmo de sorte, pois os dois menores Austriclinio e Avonino nasceram depois da viagem do pai que confiara a família ao seu cumpadre Zé Felinto, amigo de muitas décadas e homem da sua inteira confiança. O cumpadre prometeu que não tiraria os olhos da comadre. Podia seguir tranquilo. Pelo visto não tirou mesmo, já que a família aumentou e não passaram fome.

    Dizia inclusive que o caçula, nosso herói, era a cara do cumpadre. Era um amigo e tanto.

    Ao chegar ao Rio de Janeiro em um pau de arara depois de 15 dias de sofrida viagem, tomaram de cara o maior susto com aquele movimento e aquela cidade imensa e cheia de gente. O cumpadre dera uns cobres para a viagem que mal deu para pagar as passagens e comer alguma bugiganga pela estrada, sobrando muito pouco para os dias que viriam. Trouxeram galinha torrada, farinha e
    paçoca em latas de querosene, rapadura e umas duas quartinhas que iam sendo abastecidas com água por onde passavam.

    Assim Josefina Aparecida dos Santos (A Zefa de Zenô) conduziu a sua prole na grande aventura. Chorara muito ao se despedir da comadre e do cumpadre, mas como se diz por lá, rapadura é doce, mas não é mole. E a comadre já andava meio cismada achando os dois pirralhos bem parecidos com os dela.

    Pegaram um trem da Central do Brasil e foram procurar o pai e marido no endereço que recebera um ano e meio antes na última carta mandada por Zenô. Depois de muita dificuldade encontraram o tal lugar, mas nem sinal do sujeito. Primeiro veio a decepção, depois começou o desespero. Mas, como era mulher de muita fé e fibra, deixou o orgulho de lado e pediu ajuda em uma casa que por coincidência era de um casal do Ceará. Foram acolhidos e Zefa se ofereceu para trabalhar na casa que por sorte estava precisando de uma empregada.

    Assim foi levando a vida como viúva de marido vivo, ou morto sabe lá, e foi criando os filhos sem jamais pensar em voltar, pois não ia passar essa vergonha. Foi à luta e venceu. Jamais voltou a casar ou ter filhos. Conseguiu construir um barraco na favela para onde se mudara depois que arrumou um emprego em Copacabana.

    Austriclinio crescera muito namorador e pouco trabalhador. Desde pequeno acompanhava a mãe quando ela ia para o trabalho e cresceu praticamente nas areias das praias cariocas. Foi assim que chegou à idade adulta com um segundo grau concluído e uma larga experiência na arte de paquerar.

    Mas a vida segue seu rumo e um dia foi bafejado pela sorte quando conheceu uma garota que era uma diva de bonita e rica de origem. Mesmo a família da moça sendo contra o namoro, acabou tendo que aceitar o gajo depois que descobriram que a filha havia embarrigado. Não teve jeito, tiveram que casar para evitar um escândalo maior.

    Casou mas não sossegou. A sogra jurou que não lhe daria trégua e que ele jamais veria um centavo da herança da família. E ficou de campana doida para pegar o elemento numa falcatrua que fizesse a filha despachá-lo para o lugar de onde veio. Nunca aceitou o fato de um filho de migrante nordestino, um “Paraíba” como apelidam todo nordestino no Rio, e diga-se de passagem, no caso um legítimo de origem, pobre, pudesse ter conseguido um romance com sua filha da alta casta carioca e ainda casar. Era demais. Ela de certa forma se fazia de esquecida quanto às próprias origens, já que fora dançarina de teatro nas noites cariocas e atraíra as atenções de um deputado mineiro que ficara rico explorando o jogo do bicho.

    Clinô, como Austriclinio passou a se apresentar, depois de uns tempos de casado e com a mulher em final de gravidez, voltou à velha vida de paquera e passou a pular a cerca de vez em quando. Um dia se mandou para Niterói no meio da tarde com a secretária para uma tarde de amor e sexo em um motel que frequentavam num bairro discreto da cidade. Seguiam pela avenida quando o sinal fechou e Clinô avista quem? A sogra que vinha atravessando na faixa. Ela olhou para ele, botou aquele olhar de vingança e disse pra si mesma: te peguei seu salafrário. Por sorte na época não existia celular.

    Clinô não se fez de rogado, com um aceno de mão cumprimentou a sogra, sorriu e deu apartida no Opalão SS que dirigia.
    De imediato retornou para o Rio e chegou às pressas no escritório de onde ligoupara a mulher:

    Celina tenho uma proposta para lhe fazer; estou com a tarde vaga e me deu uma vontade danada de ir a Niterói com você para  revermos aquele por do sol em Icaraí. Vamos nessa? A mulher achou meio estranho o convite por não ser usual, mas aceitou.
    Em pouco tempo chegou ao escritório no centro da cidade e foram para Niterói.
    Ao chegar ao mesmo cruzamento que havia parado com a secretária, quando o sinal abriu acenou para uma pessoa e arrancou. Ao dobrarem na esquina ela perguntou: Acenou para quem? Ele respondeu: para sua mãe. Seguiram para o programa só retornando à noite para casa.

    A primeira pessoa que encontraram foi a sogra que não poupou e foi logo dizendo para a filha: Celina tenho lhe falado sempre, coração de mãe não se engana. O safado do seu marido estava em Niterói com a vagabunda da secretária em plena tarde.

    Ao que Celina respondeu: Era eu mamãe. A velha retrucou: não estou cega nem louca, pois conheço muito bem vocês dois e não era você.

    Ao que Celina respondeu: ele lhe cumprimentou não foi? Foi respondeu a mãe. Então, foi no cruzamento do sinal na avenida. Era eu. A senhora precisa não perseguir tanto o pobre do Clinô que é um grande homem, é meu marido e me ama.

    A velha engoliu em seco e avisou: desta vez você escapou seu sem-vergonha, mas ainda te pego.

    FIM

     

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