• Folclore 04.04.2012

    O Cara de Pau

    Austriclinio Maria da Silva nasceu na Paraíba, supostamente em Ingá do Bacamarte. A mãe viera para o Rio de Janeiro com ele de braço e mais outros seis com idades variando de oito anos para menos, na esperança de encontrar o marido que havia partido dois anos antes para tentar a vida em um lugar melhor, já que viviam na maior miséria no seco sertão do semiárido paraibano.

    A mãe o batizara o caçula com este nome porque lhe disseram que era de bom alvitre e traria muita sorte ao menino. Sim, precisaria mesmo de sorte, pois os dois menores Austriclinio e Avonino nasceram depois da viagem do pai que confiara a família ao seu cumpadre Zé Felinto, amigo de muitas décadas e homem da sua inteira confiança. O cumpadre prometeu que não tiraria os olhos da comadre. Podia seguir tranquilo. Pelo visto não tirou mesmo, já que a família aumentou e não passaram fome.

    Dizia inclusive que o caçula, nosso herói, era a cara do cumpadre. Era um amigo e tanto.

    Ao chegar ao Rio de Janeiro em um pau de arara depois de 15 dias de sofrida viagem, tomaram de cara o maior susto com aquele movimento e aquela cidade imensa e cheia de gente. O cumpadre dera uns cobres para a viagem que mal deu para pagar as passagens e comer alguma bugiganga pela estrada, sobrando muito pouco para os dias que viriam. Trouxeram galinha torrada, farinha e
    paçoca em latas de querosene, rapadura e umas duas quartinhas que iam sendo abastecidas com água por onde passavam.

    Assim Josefina Aparecida dos Santos (A Zefa de Zenô) conduziu a sua prole na grande aventura. Chorara muito ao se despedir da comadre e do cumpadre, mas como se diz por lá, rapadura é doce, mas não é mole. E a comadre já andava meio cismada achando os dois pirralhos bem parecidos com os dela.

    Pegaram um trem da Central do Brasil e foram procurar o pai e marido no endereço que recebera um ano e meio antes na última carta mandada por Zenô. Depois de muita dificuldade encontraram o tal lugar, mas nem sinal do sujeito. Primeiro veio a decepção, depois começou o desespero. Mas, como era mulher de muita fé e fibra, deixou o orgulho de lado e pediu ajuda em uma casa que por coincidência era de um casal do Ceará. Foram acolhidos e Zefa se ofereceu para trabalhar na casa que por sorte estava precisando de uma empregada.

    Assim foi levando a vida como viúva de marido vivo, ou morto sabe lá, e foi criando os filhos sem jamais pensar em voltar, pois não ia passar essa vergonha. Foi à luta e venceu. Jamais voltou a casar ou ter filhos. Conseguiu construir um barraco na favela para onde se mudara depois que arrumou um emprego em Copacabana.

    Austriclinio crescera muito namorador e pouco trabalhador. Desde pequeno acompanhava a mãe quando ela ia para o trabalho e cresceu praticamente nas areias das praias cariocas. Foi assim que chegou à idade adulta com um segundo grau concluído e uma larga experiência na arte de paquerar.

    Mas a vida segue seu rumo e um dia foi bafejado pela sorte quando conheceu uma garota que era uma diva de bonita e rica de origem. Mesmo a família da moça sendo contra o namoro, acabou tendo que aceitar o gajo depois que descobriram que a filha havia embarrigado. Não teve jeito, tiveram que casar para evitar um escândalo maior.

    Casou mas não sossegou. A sogra jurou que não lhe daria trégua e que ele jamais veria um centavo da herança da família. E ficou de campana doida para pegar o elemento numa falcatrua que fizesse a filha despachá-lo para o lugar de onde veio. Nunca aceitou o fato de um filho de migrante nordestino, um “Paraíba” como apelidam todo nordestino no Rio, e diga-se de passagem, no caso um legítimo de origem, pobre, pudesse ter conseguido um romance com sua filha da alta casta carioca e ainda casar. Era demais. Ela de certa forma se fazia de esquecida quanto às próprias origens, já que fora dançarina de teatro nas noites cariocas e atraíra as atenções de um deputado mineiro que ficara rico explorando o jogo do bicho.

    Clinô, como Austriclinio passou a se apresentar, depois de uns tempos de casado e com a mulher em final de gravidez, voltou à velha vida de paquera e passou a pular a cerca de vez em quando. Um dia se mandou para Niterói no meio da tarde com a secretária para uma tarde de amor e sexo em um motel que frequentavam num bairro discreto da cidade. Seguiam pela avenida quando o sinal fechou e Clinô avista quem? A sogra que vinha atravessando na faixa. Ela olhou para ele, botou aquele olhar de vingança e disse pra si mesma: te peguei seu salafrário. Por sorte na época não existia celular.

    Clinô não se fez de rogado, com um aceno de mão cumprimentou a sogra, sorriu e deu apartida no Opalão SS que dirigia.
    De imediato retornou para o Rio e chegou às pressas no escritório de onde ligoupara a mulher:

    Celina tenho uma proposta para lhe fazer; estou com a tarde vaga e me deu uma vontade danada de ir a Niterói com você para  revermos aquele por do sol em Icaraí. Vamos nessa? A mulher achou meio estranho o convite por não ser usual, mas aceitou.
    Em pouco tempo chegou ao escritório no centro da cidade e foram para Niterói.
    Ao chegar ao mesmo cruzamento que havia parado com a secretária, quando o sinal abriu acenou para uma pessoa e arrancou. Ao dobrarem na esquina ela perguntou: Acenou para quem? Ele respondeu: para sua mãe. Seguiram para o programa só retornando à noite para casa.

    A primeira pessoa que encontraram foi a sogra que não poupou e foi logo dizendo para a filha: Celina tenho lhe falado sempre, coração de mãe não se engana. O safado do seu marido estava em Niterói com a vagabunda da secretária em plena tarde.

    Ao que Celina respondeu: Era eu mamãe. A velha retrucou: não estou cega nem louca, pois conheço muito bem vocês dois e não era você.

    Ao que Celina respondeu: ele lhe cumprimentou não foi? Foi respondeu a mãe. Então, foi no cruzamento do sinal na avenida. Era eu. A senhora precisa não perseguir tanto o pobre do Clinô que é um grande homem, é meu marido e me ama.

    A velha engoliu em seco e avisou: desta vez você escapou seu sem-vergonha, mas ainda te pego.

    FIM

     

    Posted by antunios @ 01:44

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  • 4 Responses

    • monica says:

      eu minto perfeitamente/mas se vejo uma estória/que me prenda na memória/dessa que envolve a gente/fico a pensar:/toda sogra/é quase um tipo de encosto/igual bombeiro de posto/que encostado analisa/e vive só de pesquisa/acerca da vida alheia/portanto meu caro irmão/na vida tudo eu comparo/e digo de modo claro: A SOGRA ESTÁ PRA FOFOCA COMO A ARANHA ESTÁ PRA TEIA! (JÁ VIROU ATÉ UM MOTE PRA TU)

      PARABÉNS…PAREI DE ESCREVER! PORQUE DIZEM: PENSO, LOGO EXISTO…E ESTOU SEM TEMPO PRA PENSAR ENTÃO NÃO ESTOU EXISTINDO E POR ISSO NEM SEI SE FUI EU A ESCREVER ISSO AQUI…KKKKKKKKKKKKKK

    • antunios says:

      Muito bom seu comentário.Obrigado. Vou trabalhar o mote.

    • Graça Costa says:

      Gostei muito, mais coitada da sogra já tem fama que não presta.
      Ô cara de pau, enganou direitinho a esposa, esse é uma artista da enganação.

    • antunios says:

      Obrigado pelo comentário. É o mundo tem muito artista.

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