• Folclore 11.04.2012 No Comments

                Salgado Silva era o seu nome. Saíra de uma cidade do interior do Rio Grande do Norte para servir ao exército em Natal. Ao chegar no terminal rodoviário perguntou aonde poderia se alistar para servir nas forças armadas. Responderam que pegasse o ônibus para Parnamirim que lá era o lugar. Pretendia na verdade servir ao exército, mas, por uma dessas coisas do destino foi parar na base aérea. Era uma época difícil, pois o mundo estava em guerra. Salgado jamais vira um avião em toda a sua vida. Quando chegou à base, descobriu que a vida dele estava ali no meio daqueles pássaros de prata. De prata só por força de expressão, pois os aviões eram de guerra e tinham aquela pintura de camuflagem.

                Na segunda grande guerra, Natal talvez tenha sido a mais importante base aliada das Américas, pela sua localização estratégica. Os Estados Unidos montaram a base em Parnamirim na área metropolitana da capital, por ser o ponto mais próximo de Dakar na África onde os aliados lutavam contra as tropas do Eixo formado pela Alemanha, Itália e Japão.

    Foi nessa conjuntura que nosso personagem entrou para as forças armadas. As tropas brasileiras trabalhavam em conjunto com as americanas. Do sítio para o teatro de operações. Fazia de tudo no quartel. Atirar aprendeu de primeira. Também com uns mosquetões daqueles, só se fosse zarolho ou mole dos braços. E bala tinha tanta que não dava pra gastar. Gostava de tudo. Nem parecia guerra. A farda era muito bem cuidada em que pese ser exigência da caserna, Salgado ou soldado Silva como era chamado tinha um zelo especial pelo equipamento. As botas brilhavam que causavam inveja a brasileiros e gringos. Começou a ganhar um dinheirinho por fora só lustrando as botinas dos galegos. Ajudava a aumentar a alegria podendo afogar as mágoas e tudo mais tomando umas e outras nos cabarés da cidade.

    Dois episódios marcaram a carreira militar do soldado Silva durante a guerra. A primeira foi quando conheceu outro militar brasileiro, que trabalhava na mecânica dos B-25 e B-26. Estava observando o trabalho de manutenção quando foi interrogado por ele: Já entrou em um avião Silva? Não senhor, respondeu de pronto prestando continência. Venha conhecer. Eu sou responsável pelas manobras dentro do hangar. Descobri que os gringos não são tão bons assim. Eles só sabem andar com o avião pra frente. Toda hora temos que empurrar avião, puxar com trator, só porque os miseráveis não sabem dar rier. Dar rier? O que é isso moço? Dar rier é dar marcha ré, não sabia? Vem do francês. Meu nome é Júnior Filho e vou mostrar pra esses galegos como se bota um avião na garagem. Sou cabra do Seridó, cresci caçando mocó, em água dei muito nó e não vim pra base aérea pra me fazer de bocó. E como tu vai fazer tenente Júnior? Salgado Silva já estava todo empolgado e aumentou logo a patente do colega. Espere que você vai ver. Só tem uma coisa que atrapalha um pouco. O que é perguntou Silva curioso. O bicho não tem retrovisor. Você vai ter quer me ajudar avisando quando chegar perto da parede. Pode deixar aviso na hora.

    Subiu na carlinga, ligou os motores e ficou acelerando até as máquinas estarem no ponto. Quando começou a acelerar, soltou os freios da aeronave e pasmem. O avião andou para trás direitinho, indo parar no final do hangar. Pioneiro como Santos Dumont, o soldado de primeira classe Júnior Filho, tornara-se o primeiro homem do mundo a dar ré em um avião utilizando os próprios motores. De longe um oficial americano observou o que estava acontecendo e assistiu a tudo imóvel sem acreditar no que via. Enquanto isso, Júnior Filho fez uns ajustes nos propulsores e deu o serviço por encerrado. Achara tudo muito simples, afinal todos os carros da base faziam a mesma coisa. Quem não acreditou no que viu, foi o tenente-aviador Gerard East cujo apelido era GE, por causa de sua frieza nas missões e batalhas no ar. Correu para contar aos superiores o feito do brasileiro. Sofreu uma repreensão e foi ameaçado de ser punido por falar tamanha mentira. Devia ser o efeito da guerra.

    Salgado Silva só teve o direito de contar uma vez. Foi chamado de mentiroso e quando procurou Júnior para confirmar recebeu um não em troca. Era segredo industrial. Seria uma poupança para os tempos de paz na aviação civil.

    O outro fato foi provocado por causa de suas iniciais. Quis abreviar seu nome. Passou a se apresentar como SS. Todos na base passaram a lhe chamar assim. Mas, era uma época de guerra e a espionagem andava à solta. Tanto era verdade que, segundo contam, uns anos depois descobriram uma estação de rádio num convento de padres na Serra do Lima em Patú que passava informações para os submarinos alemães que atuavam na costa brasileira. Inclusive, esse era um dos motivos da patrulha permanente feita pelos hidroaviões da força aérea americana, que decolavam da Rampa na foz do Rio Potengi.

    A inteligência aliada já estava de olho nas histórias de SS. Um belo dia apresentou-se a um oficial estrangeiro e foi imediatamente detido. Mesmo que não fosse espião, certamente era admirador de Hitler. Ora quem andaria se chamando de SS nuns tempos daqueles? Precisou de ajuda dos superiores para ser solto. Quando lhe explicaram o que era SS voltou a ser apenas o soldado Silva.

    Depois da guerra continuou engajado e foi tocando a vida. Os anos foram passando e um belo dia quando a força começou um programa de modernização, encontrou o prontuário de Salgado Silva com 25 anos de serviço e nenhuma promoção. Jamais reclamara e passara a vida toda na caserna. Ali era o seu lar. Casara, constituíra família e nada de promoção. Jamais perdera as esperanças. Tinha pouco estudo, mas sabia ler e tinha aprendido muitas coisas na vida militar. Não era mal-agradecido. O melhor estava por vir.

    Ao descobrirem a situação de Salgado foi feito um memorando de promoção para corrigir a grande distorção. Afinal de contas antiguidade é posto e Silva já devia ser pelo menos sargento. Foi promovido em uma cerimônia simples, mas, emocionante. Foi para casa sentindo-se o homem mais feliz do mundo. Foi recebido pela mulher com um grande abraço e uma pergunta.

    Marido, você já é cabo? Ele respondeu sorridente: E eu brinco?

     

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  • Folclore 04.04.2012 4 Comments

    O Cara de Pau

    Austriclinio Maria da Silva nasceu na Paraíba, supostamente em Ingá do Bacamarte. A mãe viera para o Rio de Janeiro com ele de braço e mais outros seis com idades variando de oito anos para menos, na esperança de encontrar o marido que havia partido dois anos antes para tentar a vida em um lugar melhor, já que viviam na maior miséria no seco sertão do semiárido paraibano.

    A mãe o batizara o caçula com este nome porque lhe disseram que era de bom alvitre e traria muita sorte ao menino. Sim, precisaria mesmo de sorte, pois os dois menores Austriclinio e Avonino nasceram depois da viagem do pai que confiara a família ao seu cumpadre Zé Felinto, amigo de muitas décadas e homem da sua inteira confiança. O cumpadre prometeu que não tiraria os olhos da comadre. Podia seguir tranquilo. Pelo visto não tirou mesmo, já que a família aumentou e não passaram fome.

    Dizia inclusive que o caçula, nosso herói, era a cara do cumpadre. Era um amigo e tanto.

    Ao chegar ao Rio de Janeiro em um pau de arara depois de 15 dias de sofrida viagem, tomaram de cara o maior susto com aquele movimento e aquela cidade imensa e cheia de gente. O cumpadre dera uns cobres para a viagem que mal deu para pagar as passagens e comer alguma bugiganga pela estrada, sobrando muito pouco para os dias que viriam. Trouxeram galinha torrada, farinha e
    paçoca em latas de querosene, rapadura e umas duas quartinhas que iam sendo abastecidas com água por onde passavam.

    Assim Josefina Aparecida dos Santos (A Zefa de Zenô) conduziu a sua prole na grande aventura. Chorara muito ao se despedir da comadre e do cumpadre, mas como se diz por lá, rapadura é doce, mas não é mole. E a comadre já andava meio cismada achando os dois pirralhos bem parecidos com os dela.

    Pegaram um trem da Central do Brasil e foram procurar o pai e marido no endereço que recebera um ano e meio antes na última carta mandada por Zenô. Depois de muita dificuldade encontraram o tal lugar, mas nem sinal do sujeito. Primeiro veio a decepção, depois começou o desespero. Mas, como era mulher de muita fé e fibra, deixou o orgulho de lado e pediu ajuda em uma casa que por coincidência era de um casal do Ceará. Foram acolhidos e Zefa se ofereceu para trabalhar na casa que por sorte estava precisando de uma empregada.

    Assim foi levando a vida como viúva de marido vivo, ou morto sabe lá, e foi criando os filhos sem jamais pensar em voltar, pois não ia passar essa vergonha. Foi à luta e venceu. Jamais voltou a casar ou ter filhos. Conseguiu construir um barraco na favela para onde se mudara depois que arrumou um emprego em Copacabana.

    Austriclinio crescera muito namorador e pouco trabalhador. Desde pequeno acompanhava a mãe quando ela ia para o trabalho e cresceu praticamente nas areias das praias cariocas. Foi assim que chegou à idade adulta com um segundo grau concluído e uma larga experiência na arte de paquerar.

    Mas a vida segue seu rumo e um dia foi bafejado pela sorte quando conheceu uma garota que era uma diva de bonita e rica de origem. Mesmo a família da moça sendo contra o namoro, acabou tendo que aceitar o gajo depois que descobriram que a filha havia embarrigado. Não teve jeito, tiveram que casar para evitar um escândalo maior.

    Casou mas não sossegou. A sogra jurou que não lhe daria trégua e que ele jamais veria um centavo da herança da família. E ficou de campana doida para pegar o elemento numa falcatrua que fizesse a filha despachá-lo para o lugar de onde veio. Nunca aceitou o fato de um filho de migrante nordestino, um “Paraíba” como apelidam todo nordestino no Rio, e diga-se de passagem, no caso um legítimo de origem, pobre, pudesse ter conseguido um romance com sua filha da alta casta carioca e ainda casar. Era demais. Ela de certa forma se fazia de esquecida quanto às próprias origens, já que fora dançarina de teatro nas noites cariocas e atraíra as atenções de um deputado mineiro que ficara rico explorando o jogo do bicho.

    Clinô, como Austriclinio passou a se apresentar, depois de uns tempos de casado e com a mulher em final de gravidez, voltou à velha vida de paquera e passou a pular a cerca de vez em quando. Um dia se mandou para Niterói no meio da tarde com a secretária para uma tarde de amor e sexo em um motel que frequentavam num bairro discreto da cidade. Seguiam pela avenida quando o sinal fechou e Clinô avista quem? A sogra que vinha atravessando na faixa. Ela olhou para ele, botou aquele olhar de vingança e disse pra si mesma: te peguei seu salafrário. Por sorte na época não existia celular.

    Clinô não se fez de rogado, com um aceno de mão cumprimentou a sogra, sorriu e deu apartida no Opalão SS que dirigia.
    De imediato retornou para o Rio e chegou às pressas no escritório de onde ligoupara a mulher:

    Celina tenho uma proposta para lhe fazer; estou com a tarde vaga e me deu uma vontade danada de ir a Niterói com você para  revermos aquele por do sol em Icaraí. Vamos nessa? A mulher achou meio estranho o convite por não ser usual, mas aceitou.
    Em pouco tempo chegou ao escritório no centro da cidade e foram para Niterói.
    Ao chegar ao mesmo cruzamento que havia parado com a secretária, quando o sinal abriu acenou para uma pessoa e arrancou. Ao dobrarem na esquina ela perguntou: Acenou para quem? Ele respondeu: para sua mãe. Seguiram para o programa só retornando à noite para casa.

    A primeira pessoa que encontraram foi a sogra que não poupou e foi logo dizendo para a filha: Celina tenho lhe falado sempre, coração de mãe não se engana. O safado do seu marido estava em Niterói com a vagabunda da secretária em plena tarde.

    Ao que Celina respondeu: Era eu mamãe. A velha retrucou: não estou cega nem louca, pois conheço muito bem vocês dois e não era você.

    Ao que Celina respondeu: ele lhe cumprimentou não foi? Foi respondeu a mãe. Então, foi no cruzamento do sinal na avenida. Era eu. A senhora precisa não perseguir tanto o pobre do Clinô que é um grande homem, é meu marido e me ama.

    A velha engoliu em seco e avisou: desta vez você escapou seu sem-vergonha, mas ainda te pego.

    FIM

     

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