• Uncategorized 18.02.2012

    Chegar aos 90 anos lúcida e com pleno domínio de atos e atitudes é uma benção. Pois é, minha mãe Dona Lourdinha como é conhecida por alguns, ou Veloso por outros chegou lá. Fizemos um encontro para marcar a data. Registrei um pouco de nossa história em um cordel.

    Lourdinha chega aos 90

    I

    Lourdinha chega aos noventa

    Como uma brava guerreira

    Pois ela se reinventa

    Não tem pressa, nem carreira

    Coração forte que agüenta

    A vida sem brincadeira

    II

    Sabe tudo o que acontece

    Porque não falta quem conte

    Conversa que não merece

    Também escuta de monte

    Porém o que lhe apetece

    Nem sempre jorra da fonte

    III

    De vinte e dois para cá

    Viveu e teve conforto

    Viu Lampião se acabar

    O Brasil andando torto

    Sem um bom pra governar

    Porque o bom nasce morto

    IV

    Andou no trem dos ingleses

    De jipe cinqüenta e sete

    Na terra dos portugueses

    Só vai com noventa e sete

    E na Paris dos franceses

    Em dois mil e dezessete.

    V

    A cabeça não se esquece

    De data e acontecimento

    Por que se isso acontece

    Vira logo um sofrimento

    Às vezes até se aborrece

    Pois tem muito sentimento

    VI

    Tinha medo de trovão

    De raio e chuva de vento

    Conheceu Napoleão

    Casou e veio um rebento

    Seguido por um montão

    De tanto embarrigamento

    VII

    Do sertão ao litoral

    Viajava a todo instante

    Mas não foi a Portugal

    Nem na terra de Cervantes

    Mas viu a missa papal

    E a vida seguiu avante

    VIII

    E mesmo sendo baixinha

    É grande a vitalidade

    Com ajuda da vizinha

    Ia pra maternidade

    Nasceu oito criancinhas

    Todos na melhor idade

    IX

    Morou no revezamento

    Em Natal e Caicó

    Sem nenhum constrangimento

    Mudava para melhor

    Não teve arrependimento

    Quando foi pro Seridó

    X

    Viver uma longa vida

    É uma benção do divino

    Não é rua, é avenida

    Na história do destino

    De uma mulher aguerrida

    Que criou muito menino

    XI

    Jamais gostou de dançar

    Nem andar de avião

    Quando é para viajar

    Prefere andar pelo chão

    Pela estrada a rodar

    De jipe ou de caminhão

    XII

    Quando ia pra Santa Rita

    Pras festas do fim do ano

    Falava com a modista

    Pra encomendar os panos

    Pra se vestir como artista

    E ir encontrar os manos

    XIII

    A caravana saía

    Com destino a Paraíba

    Por Campina Grande ia

    Sem passar por Macaíba

    Levando as suas Marias

    Pra sombra da Itaíba

    XIV

    Os meninos também iam

    Completando toda prole

    Uns choravam, outros caíam

    Mas não tinha ninguém mole

    De tudo um pouco comiam

    De galinha a rocambole

    XV

    Napoleão viajava

    No rumo da capital

    E Lourdinha então ficava

    De comandante geral

    Enquanto ele voltava

    Da cidade do Natal

    XVI

    Morou na Jaguarari

    Onde fez muita amizade

    Com as vizinhas dali

    Havia felicidade

    Bebezinha de Valdir

    Com filho da mesma idade

    XVII

    Uma vez eu me perdi

    Quando voltei da escola

    Numa situação me vi

    Sem destino e sem sacola

    Foi ali que aprendi

    Que às vezes ninguém dá bola

    XVIII

    Aquele acontecimento

    Me ensinou a ser esperto

    Gravando a todo momento

    Pra chegar no rumo certo

    Eu chego olhando pro vento

    Me acho em qualquer deserto

    XIX

    A Lourdinha andou de sopa

    Em misto com chapeado

    Eu viajava de toca

    Pra não pegar resfriado

    Vestia uma boa roupa

    Tinha que andar arrumado

    XX

    Nos levava pra consulta

    Com o tal doutor Jamil

    Que vivia na labuta

    Dum jeito que já sumiu

    Com as ciências ocultas

    Muito pouca gente viu

    XXI

    O velho de olhar felino

    Pela unha consultava

    Verminose de menino

    Doença que vomitava

    Os males do intestino

    E o que gente cagava

    XXII

    No sítio de seu Alfredo

    Se sentia a natureza

    Puxar a água bem cedo

    Da cacimba era beleza

    O que nos metia medo

    Era a sua profundeza

    XXIII

    Lourdinha de muitos filhos

    Arranjou muitas comadres

    Passeando pelos trilhos

    Conheceu muitas cidades

    Pessoas de muito brilho

    E muito mais de dez padres

    XXIV

    Sempre com o terço na mão

    Rezando à noite e de dia

    Entoando uma canção

    Lembrando a cova da Iria

    Onde a houve aparição

    Da nossa Santa Maria

    XXV

    Viveu na religião

    Freqüentava a sua igreja

    Pra nós fazia oração

    Com uma reza benfazeja

    Com a fé no coração

    E em Jesus aonde esteja

    XXVI

    Quando chegou aos oitenta

    Houve uma copa do mundo

    O Brasil chegou ao penta

    Com Ronaldo pé no fundo

    O Felipão se apoquenta

    Com jogador vagabundo

    XXVII

    Recitando dez mil versos

    Não se conta toda a história

    Com humildade confesso

    Me falta um pouco a memória

    Por aqui eu me despeço

    À minha mãe toda a glória.

     

    Natal/RN, 11 de fevereiro de 2012.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Posted by antunios @ 21:27

  • One Response

    • Ernani Rodrigues says:

      Ponha muitos milhares de versos nisso pois ainda não contaras a história dessa linda mulher
      Parabésn
      Tia Lurdes

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