• Por volta dos idos de 80, constumávamos nos reunir em família às sextas-feiras e convidar alguns amigos para um joguinho de canastra. Varávamos a noite entre goles de whisky, tira-gosto e boas conversas. Um dos frequentadores assíduos da residência de um primo era um profissional de comunicações muito conhecido no Recife. Chamava-se Fernando Castelão. Ficara famoso por apresentar um dos primeiros programas de TV ao vivo no início da década de 60, o Você faz o Show. Salvo engano era na Tv Jornal do Commercio. Muito bem, Castelão era um grande contador de histórias e tinha uma verdadeira coleção de causos e casos, quase sempre temperados com muito humor e muitas vezes com versos.

    Contou certa vez, que um grupo de cidadãos já na terceira para a quarta idade, costumava se encontrar pelas manhãs na praça de Casa Forte, um bairro nobre do Recife. Reuniam-se aposentados de diversas profissões no amanhecer da capital pernambucana para caminhar e prosear, geramente falando do que já tinham feito. Ocorre que, neste mesmo horário, também costumavam frequentar a praça uma grande quantidade de secretárias do lar que tinham como primeira tarefa do dia, levar os cachorrinhos das madames para passear e descarregar no local enquanto as patroas dormiam. Eram um deleite para os velhinhos. À medida que a idade avança e a vista encurta, as mulheres ficam cada vez mais bonitas. E elas provocavam os vovôs.

    Mas, tinha uma que era especial. Morena com seus 22 anos, alta, altiva, pernas bem torneadas, um charme só. Além disso, tinha uma bunda perfeita, parecia feita à mão por um escultor talentoso. Foi demais para um juiz que também era poeta. Fez uma homenagem justíssima aos atributos da moça. Nunca soube seu nome para dar os créditos ao autor.

    ELEGIE À BUNDA

    Quando ela passa, todo mundo espia

    Não para a cara que não é formosa,

    Mas, para a bunda que é maravilhosa.

    Em bunda nunca vi tanta magia,

    Quebra, requebra, rodopia,

    Numa sensação vertiginosa.

    E deve ser assim uma bunda cor de rosa,

    Da cor do céu quando desponta o dia.

    E ela que sabe que sua bunda é boa,

    Segue faceira e rebolando à toa.

    E eu fico aqui, extasiado e mudo,

    Não pela cara que não vale nada,

    Mas pela bunda, que é o que vale tudo.

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  • Não tive o prazer de conhecer meu bisavô José Rodrigues de Carvalho. Foi escritor, jornalista e um bocado de coisas mais. Era também um grande poeta. Seu livro “Cancioneiro do Norte” reeditado em 3a edição por ocasião do seu centenário de nascimento em 1967, teve muita influência sobre o meu interesse por poesia popular. Tornei-me cordelista vocacionado pela leituras dos grande feitos dos mestres cantadores de tantas rimas e tantos embates, muitos descritos no livro. A poesia a seguir é um soneto escrito por Rodrigues de Carvalho:

    OS SEIOS

    “Quando a seiva da carne perfumosa

    Protubera-se em conchas ofegantes,

    Os seios da mulher são como errantes

    Aves do céu com bicos cor de rosa!

     

    Pomos com fibras de cetim, enconhos,

    São quando a virgem na cerúlea estância,

    Rompe o casulo lirial da infância

    Para ser Chlóris de um pomar de sonhos!

     

    Mas, quando, oh! nume da paixão, os mundos,

    Aos olhos frágeis dos mortais desvendas,

    Cheios de amor, de sedução fecundos…

     

    Eles, qual fruto tentador das lendas,

    São dois abismos santamente fundos,

    Dois assassinos no grilhão das rendas!”