• Folclore 22.10.2009

    Sempre gostei de ouvir e contar histórias. Umas verdadeiras, outras nem tanto, então fui juntando aqui e ali e acabei fazendo uma coletânea que publiquei no meu primeiro livro cujo título é “Caçando Jaburu e outras Histórias. Aqui vai uma dessas histórias que repasso como me contaram. Se é verdade não sei, mas o cenário é bem real e pode ser visto em muitas cidades do interior do nosso país. Espero que apreciem.

    RESPOSTA ADEQUADA

    Festa de padroeira no interior é sempre o maior acontecimento do ano. Em um país com uma religiosidade tão arraigada como o Brasil, as festas da fé são verdadeiros eventos, onde o religioso e o profano andam lado a lado.

                    Esta história passou-se numa dessas festas em um lugarejo do interior do Nordeste.

                    A festa da padroeira Nossa Senhora das Boas Virtudes durava dez dias. Acontecia sempre nos meses de julho, época menos seca e coincidente com as férias escolares, o que possibilitava receber filhos da terra egressos de outras cidades onde tinham ido morar, estudar e fazer a vida. Vinha gente de todo lugar, incluindo Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife entre outras.

                    A igreja matriz ficava no fim da avenida principal, numa grande praça arborizada com um coreto no centro e um passeio dando uma volta completa, por onde as moças desfilavam de braços dados em grupos, enquanto os rapazes ficavam parados observando e flertando em busca daquela que seria a sua namorada na festa e nos bailes.

                    Diariamente aconteciam novenas, e após o culto religioso a banda de música Lira do Sertão fazia uma retreta animando o local enquanto as pessoas divertiam-se no parque de diversões e bebiam umas e outras nas diversas mesas espalhadas pelas ruas em torno da matriz.

     Nos diversos bares e restaurantes eram servidos ótimos tira-gostos da cozinha regional que incluíam sarapatel, buchada de bode, lingüiça de porco, sem falar em carne de sol com macaxeira, regada por uma excelente manteiga de garrafa.

    Não faltava também um churrasco de carne de bode e carneiro guisado com pirão. Galinha de capoeira com pirão de parida servia para levantar até defunto bêbado, coisa bem comum nos finais de noite. Diz-se que um pirão de parida ou uma cabeça de galo, são perfeitos para evitar ressaca no dia seguinte e agüentar a maratona de bailes e bebedeiras.

    Depois da novena e da retreta a quermesse incluía um leilão de produtos doados pela população para gerar renda para a igreja.

                    Mariazinha era uma moça de poucas posses, mas de beleza destacada no lugar, chamando a atenção da garotada que queria namorar. Embora, ainda não tivesse feito dezoito anos, já demonstrava ser muito esperta e sabia como poucas tirar proveito em certas situações. Tinha arrumado um guarda-roupa razoável para agradar os pretendentes durante a festa, mas, faltava-lhe um componente essencial para aparecer bem no último dia da festa na praça e no baile; um belo par de sapatos.

    José era o que se podia chamar de  pessoa do bem. Vivia lá no sítio da família, levando uma vida simples cuidando do gado e das criações. Já tinha algumas cabeças próprias para negociar e fazer um dinheiro para gastar na festa e doar um pouco para as obras da Santa Madre Igreja.

    Só ia à cidade quando tinha negócios ou nas ocasiões festivas. No último sábado da festa, levou sua mercadoria para vender na cidade na feira pública que acontecia durante todo o dia.

    Alguns quilos de carne de cabrito, dois carneiros já tratados, uns trinta quilos de queijo que tinha feito com o leite das vacas, uma carne de sol de primeira e umas garrafas de manteiga. Somava-se ainda lingüiça sertaneja e umas latas de chouriço, um doce muito apreciado feito com sangue de porco, farinha de gergelim, açúcar e castanha de caju assada.

    Vendeu tudo antes das duas da tarde e apurou uns cento e cinqüenta contos de reis. Um conto de réis correspondia a um mil cruzeiros da época em que se chamava cinqüenta centavos de quinhentos réis.

    Botou o dinheiro no bolso e seguiu feliz para o centro da cidade para comprar a roupa que iria vestir à noite na festa. Estava olhando as vitrines quando viu Mariazinha e ficou literalmente encantado, com um olhar de bobo, como se tivesse visto visagem. Ela o estava fitando com um largo sorriso nos lábios carnudos de cabocla bem criada. Virou de lado para ter certeza que era para ele que ela estava realmente olhando. Era, não havia dúvidas, a festa começara bem para Dedé como era conhecido entre os amigos.

    Por ser sempre bem intencionado, costumavam lhe pregar peças e alguns por maldade o chamavam de Dedé Besta, porque sempre era vítima das brincadeiras de mau gosto. Diziam até que uns versos atribuídos ao poeta Moisés Sesiom teriam sido dedicados a ele, dada a tamanha leseira que costumava aparentar.

     

    Andei procurando um besta,

    Um besta que fosse capaz,

    De tanto procurar um besta,

    Encontrei este rapaz,

    Que nem pra besta serve,

    Porque é besta demais.

     

    Ela foi logo puxando conversa com ele.

    Você vai para a quermesse hoje?

    Dedé respondeu: Vou, só falta comprar a roupa, e você?

    Mariazinha respondeu:

    Estou doida pra ir, mas, tem um problema, tenho vestido, mas, não tenho sapato. Talvez tenha que ficar em casa.

    Acabara de jogar o laço

    Falou Dedé:

    Por isso não, se eu lhe der o sapato, você se encontra comigo lá?

    Ela respondeu:

    Com toda certeza, à noite nos encontraremos no leilão da quermesse.

    Então vamos à sapataria, chamou Dedé.

    Ela o guiou rua abaixo na direção da melhor sapataria da cidade. O ponto era famoso na venda de sapatos para as moças da cidade, donzelas ou não, pois encontravam produtos da moda usados nas principais cidades do país. Era evidente que os preços também não eram os mais baratos.

    Ela dirigiu-se à vendedora e já foi pedindo o par de sapatos que já estava separado. Pronto Dedé é esse aqui que eu quero. Pode pagar e à noite nos encontramos conforme combinado. Agora tenho que ir.

    A vendedora apresentou a conta a Dedé que quase morreu de susto quando viu o preço. Setenta contos de réis custava o sapatinho da moça. Era um presente muito caro para quem tinha apurado menos de cento e cinqüenta e ainda tinha alguns gastos para honrar. Mas, agora estava sem jeito. Tirou os cobres do bolso, pagou e saiu pensativo com uma estranha sensação de que tinha sido enrolado. Teria que esperar até à noite para saber.

    Arranjou-se como pode para pagar as contas e comprar sua própria roupa com o pouco que lhe restou, Ficou quase sem dinheiro para gastar no leilão. Encontrou seus amigos e contou-lhes só a parte boa, que tinha arranjado uma tremenda gata para namorar à noite, uma das mais bonitas da cidade. Todos ficaram curiosos e com uma ponta de inveja. Afinal, ainda não tinham conseguido nada.

    Chegou o tão esperado momento. A ansiedade era indisfarçável e Dedé não via a hora de encontrar Mariazinha e mostrar aos amigos a sua grande conquista.

    Ao chegarem ao pátio do leilão lá estava ela, linda em seu vestido de festa e os sapatos brilhando nos pés. Estava rodeada de amigas e de braços com outro e pelo jeito carinhoso dava a entender que era namorado. Foi uma ducha de água fria para Dedé. Ela acenou levemente para ele e desviou a atenção para o leilão.

    Entre uma oferta e outra, havia um espaço para recados, música e participação do público. Num desses intervalos Mariazinha dirigiu-se ao palco, pegou o microfone e anunciou que ia fazer uma homenagem.

    Senhoras e senhores, queridos amigos, quero fazer uma homenagem especial a uma pessoa, que possibilitou a minha presença aqui hoje à noite. É para você Dedé a quadrinha que vou recitar.

     

    Sapato de setenta contos,

    Só quem tem aqui sou eu,

    De braços com quem eu gosto,

    Olhando pra quem me deu.

     

    Foi uma facada pelas costas. Todos riram à vontade, principalmente os que já sabiam do golpe que ela dera no pobre do matuto.

    O locutor anunciou que o direito de resposta para agradecer estava garantido e disponibilizou o microfone para Dedé falar.

    Extremamente contrariado com o papelão que tinha feito, considerou: barco perdido, bem carregado, pensou.

    Senhoras e senhores agradeço a oportunidade para falar e poder responder à altura da homenagem de Mariazinha, e recitou:

     

    Sapatos de setenta contos,

    Só quem tem aqui és tu,

    Custou-me o suor do rosto,

    E as pregas do seu cú.

     

    Estava vingado.

     

     

     

     

    Posted by antunios @ 01:46

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  • 2 Responses

    • May says:

      Genial!
      Totalmente genial! Eu sempre abro aqui pra ler esse post e sempre dou boas risadas huahua

      Sou estudante de letras e sempre, desde o colegial, dizia que esse tipo de coisa é o que enriquece nossa cultura. Mas há muito tempo não achava um autor bom no estilo.

      Parabéns! Você tem um dom, e o usa muito bem.

      :D

    • antunios says:

      Muito obrigado. Volte sempre.

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