• Folclore 29.10.2009

    Aqui está mais uma das histórias que publiquei no livro “Caçando Jaburu e outras histórias”.                                                                                      

    No ano da graça de 1968, passeando pela feira de Campina Grande na Paraíba dei de cara com um daqueles contadores de histórias tão comuns no Nordeste do Brasil. Normalmente estão vendendo literatura de cordel, uma das manifestações mais puras da poesia popular brasileira.

    O moço nesse caso estava ensinando a jogar no bicho e vendendo uma combinação de palpites prontos com simpatias para os crédulos arriscarem a sorte na busca de acertar uma milhar premiada na cabeça, ou seja, no primeiro prêmio.

    O jogo do bicho é uma contravenção tolerada em todos os estados brasileiros, mas, regulamentada na Paraíba no tempo em que o Dr. João Agripino Maia era governador do Estado.

    Consiste numa loteria com um grupo de vinte e cinco animais em ordem alfabética, cada um representado por um número. Começa com a águia que é a número 01 e termina com a vaca que é a de número 25. A premiação menor é quando se acerta no grupo que paga na maioria das cidades brasileiras R$ 15,00 por cada real apostado.

    A dezena paga R$ 50,00 reais por cada real um jogado, a centena R$ 400,00 e a maior é quando se acerta a milhar do primeiro prêmio que paga em média R$ 4.000,00 por cada unidade de moeda jogada, variando o valor de cidade para cidade.

    Os jogos são divididos em cinco prêmios compostos de uma milhar cada um. Ou seja, pode-se tirar a sorte em qualquer milhar desde que se jogue do 1º ao 5º. Cada animal do grupo é reconhecido por quatro dezenas em ordem crescente mais dois dígitos variando de 01 a 99 compondo a milhar.

    Exemplo: A águia é reconhecida pelas dezenas de terminação 01, 02, 03 e 04, associada a qualquer dezena entre 01 e 99 compondo a milhar. Assim, 0101 é águia, 9901 é águia, 5004 é águia. Somam 400 milhares para cada bicho em cada prêmio, totalizando 2000 milhares nos cinco prêmios e 50000 no total dos 25 bichos. Isso em cada corrida, pois à época eram sorteados três prêmios durante o dia, pela manhã, à tarde e à noite.

    Conta a história que o jogo do bicho foi inventado pelo Barão de Drummond em 1892 no Rio de Janeiro. O Barão era dono do Jardim Zoológico e recebia subvenção da Coroa  para manter tudo funcionando. Com o advento da República a verba foi cortada e o Zoológico passou a ter dificuldades para sobreviver. Foi quando surgiu a idéia de lançar a loteria animal.

    O sonho é um grande aliado do jogador do bicho. Permite as mais diversas interpretações e como às vezes dá certo, segue no imaginário popular como uma grande ferramenta de auxílio para ganhar no jogo.

    O propagandista, como eram chamados aqueles homens que divulgavam produtos na feira, contou a seguinte história:

     Numa cidade do interior da Paraíba morava uma senhora que, de tão viciada no jogo, há um bom tempo não sonhava. Consultara uma cartomante que lhe dissera que na próxima vez que sonhasse, receberia uma indicação de palpite para o jogo do bicho que era líquido e certo. Era só ter um pouco de paciência. Após alguns dias  veio o tão esperado sonho com a seguinte indicação; no dia seguinte a primeira pessoa que lhe “desse as horas”, expressão usada no interior para o cumprimento, daria o palpite do jogo do bicho. Mas, tinha uma recomendação importante; ela não poderia dirigir a palavra a ninguém, senão o palpite não viria. Teria que ter paciência e aguardar, para não quebrar o encanto.

    Ela morava numa rua típica das cidades pequenas do Nordeste do Brasil. Casas geminadas, parede e meia como são conhecidas, calçada única, uma porta principal dividida em duas metades e uma só janela com parapeito largo para apreciar o movimento externo nas horas de folga. A casa era uma das últimas da rua, ficando bem próxima a uma vacaria já quase na área rural da cidade. Em frente à casa tinha um cacimbão que servia de fonte  para quase todo mundo, já que água encanada era uma esperança para o futuro naquele sertão esquecido pelos homens, já que Deus não esquece ninguém. O poço ficava bem embaixo de um grande pé de tamarindo que fazia uma sombra muito larga devido à enorme copa da árvore. Era um verdadeiro oásis naquela fornalha sertaneja do semi-árido paraibano.

    A senhora acordou cedo, no raiar do dia e postou-se na janela esperando o cumprimento salvador que traria o palpite para o jogo vencedor e a sorte grande. Logo os vaqueiros, todos conhecidos, começaram a passar para ordenhar as vacas e para a lida diária e nada. Nem um bom dia, parecia que nunca tinham se visto. As horas foram passando, os filhos acordaram, as pessoas da casa iniciaram suas atividades rotineiras, mas ninguém lhe dirigiu uma só palavra. Parecia que estava invisível, pois nem vizinhos, nem parentes nem amigos lhe dirigiram qualquer cumprimento.

    Decidiu apostar no sonho, permanecendo calada esperando o mensageiro da sorte. Quando o cambista apareceu no início da rua já perto das 11 horas a angústia tomou conta dela, pois estava vendo sua esperança ir embora. Não poderia esperar pelo jogo da tarde, pois a recomendação no sonho era expressa, só vale para o jogo do meio dia.

    Mas, como diz o ditado, “a quem Deus promete não falta”, parou na sua porta um caminhão Chevrolet 46 reduzido pé de bode como era conhecido o modelo da GMC, e o motorista desceu e disse:

    - Bom dia dona Maria. Ela disse para si mesma, é esse, só pode ser.

    A senhora dá licença eu tirar água da sua cacimba para botar aqui no radiador da minha onça? Carro velho no Nordeste é chamado de onça.

    Ela pensou rápido, é ele, não tem erro. No jogo do bicho não tem onça, mas tem os primos, Tigre e Leão, e anotou sem demora para não esquecer.

    Pois não seu Zé, fique à vontade. Ao que o motorista respondeu: vou aproveitar a sua sombra para acertar a Borboleta dessa boca de Jacaré que vem comendo muita gasolina. Ela anotou mais dois no caderninho. Passado algum tempo o motorista e mecânico, dirigiu-se a uma pessoa que vinha em cima da carroceria e que era seu chapeado, como são conhecidos os ajudantes de caminhão e falou:

    Elefante desce daí. Vamos tomar uma para dar fome pro almoço? Vamos patrão, boa idéia. O motorista respondeu:

    Não sabe aquela Gata veia que eu matei o Carneiro dela com o carro? Sei patrão. Pois vá lá na barraca dela pegue uma garrafa de aguardente Touro com tira gosto de Peru pra gente sarrar o Galo nessa cabeça de Porco. O sonho começara a virar um pesadelo depois de tantos palpites.

     Quando Elefante saiu o motorista virou-se para ela e disse: Tá vendo aí D. Maria, esse cabra diz que é Águia, é metido a sabido, mas, não passa de um Burro. Tem 15 filhos, família de Coelho sem condições de sustentar com o dinheiro que ganha. A mulher coitada é magra como uma Cobra, as canelas finas, num tem que ver as canelas de um Avestruz. Nesse ponto da conversa Elefante já retornava com as encomendas e ainda ouviu os últimos comentários. Falando de mim patrão? Não só estava dizendo a D. Maria que você só quer viver da beleza feito Pavão.

    Terminaram de arrumar o caminhão, beber e comer e despediram-se de D. Maria que a essa altura já estava com o caderno cheio. De repente ouviu-se um estampido seguido de um chiado,  e…, acabara de estourar um pneu. Desceram e o motorista constatou que estava sem as ferramentas adequadas para a troca do pneu. Virou-se para Elefante e falou: Elefante, vá lá na casa de compadre Camelo e peça o Macaco dele emprestado, mas, não entre na casa não, pois os Cachorros de lá são brabos e do tamanho de um Cavalo. Ao que Elefante respondeu: Mas patrão, compadre Camelo é muito Urso, não vai querer emprestar o Macaco não.

    Deixe de conversa e vá logo Viado, tá feito Vaca ?

    E assim cumpriu-se a profecia.

    NOTA: Os valores de premiação da história forma pesquisados por ocasião da feitura do livro. Hoje tem cidades que pagam para a milhar 5000×1, a centena 600×1, a dezena 60×1 e o grupo 18 reais por 1 no grupo. Existem ainda uma grande gama de combinações que geram os mais diversos valores de premiação.

    Obs: CONTATO COM O AUTOR: antunios@hotmail.com

    Posted by antunios @ 22:39

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  • One Response

    • Ernani Rodrigues de C. Filho says:

      Muito bom esse comentario sobre jogo do bicho.

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